Sudão: a guerra esquecida que extingue o futuro — crise humanitária e colapso da educação

Crise no Sudão: mais de 8 milhões de crianças fora da escola, 14 milhões deslocados e graves violações — análise de Marco Severini.

Sudão: a guerra esquecida que extingue o futuro — crise humanitária e colapso da educação

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Sudão: a guerra esquecida que extingue o futuro — crise humanitária e colapso da educação

Por Marco Severini — A tragédia em curso no Sudão revela um redesenho cruel do tabuleiro geopolítico africano e o colapso dos alicerces sociais. Segundo as Nações Unidas, mais de 8 milhões de crianças em idade escolar não frequentam aulas devido à guerra civil que já se estende por mais de três anos. O alerta foi feito pela vice‑secretária‑geral da ONU, Amina Mohammed, durante sessão informativa do Conselho de Segurança dedicada à proteção da educação no país, no 1.210º dia do conflito.

"Entre tudo o que esta guerra está a levar, uma das perdas mais significativas é o futuro do Sudão, ao privar seus filhos da educação", declarou Mohammed. A situação no Darfur ilustra a devastação: quase três quartos das escolas foram danificadas, destruídas ou tornadas inábteis desde o reavivar dos combates em abril de 2023.

Segundo a vice de António Guterres, cinco em cada seis crianças não frequentam a escola, e muitas famílias optam por mantê‑las em casa, visto que a própria residência passou a ser, para eles, o único local percebido como relativamente seguro. É um indicador de desintegração social tão profundo quanto as fraturas políticas que alimentam o conflito.

Esta é, por extensão, a maior crise humanitária que as Nações Unidas enfrentam atualmente. Gerações inteiras nasceram e cresceram em condições de guerra. O número de deslocados atingiu marcas recordes: um total citado de 14 milhões de pessoas deslocadas, com cerca de 6,8 milhões deslocados internamente (segundo o ACNUR), enquanto outros grupos foram forçados a retornar a áreas de origem ou buscar refúgio além‑fronteiras — parte da diáspora sudanesa soma cerca de 4 milhões em países estrangeiros.

O espectro dos crimes de guerra acompanha esse êxodo. Mulheres deslocadas relatam abusos sexuais cometidos por combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF). Investigadores da ONU verificaram 546 episódios que envolveram pelo menos 838 vítimas, advertindo que esses números provavelmente representam apenas a ponta do iceberg.

O conflito não é linear; trata‑se de uma tectônica de poder com fases distintas. O reagravamento em 2023 ocorreu após a tentativa fracassada de assimilação paramilitar das RSF ao Exército Regular Sudanês (SAF). As RSF, comandadas pelo general Mohamed Hamdan Dagalo — conhecido como Hemedti —, originaram‑se oficialmente em 2013 e consolidaram influência sobre corredores fronteiriços e recursos minerais, em particular minas de ouro. Elas são herdeiras diretas das milícias Janjaweed, empregadas durante a repressão no início dos anos 2000 pelo ex‑ditador Omar al‑Bashir.

Desde abril de 2023, as RSF e o SAF, liderado pelo general Abdel Fattah al‑Burhan, travam uma guerra aberta pelo controle do país. A ruptura — uma jogada decisiva no tabuleiro interno — ocorreu pela recusa das RSF em submeter‑se ao comando do Exército, e pelo subsequente controle de amplas regiões, inclusive vastas áreas do Darfur e partes da capital.

Como analista, observo que esta crise é simultaneamente humanitária e estratégica: as capas de desinformação e a multiplicidade de atores regionais e internacionais transformaram o Sudão num ponto de inflexão para a estabilidade do Corno de África. A resposta internacional exige, portanto, não apenas assistência emergencial, mas um plano de reconstrução institucional que reconquiste os espaços civis—escolas, hospitais, mercados—essenciais para que a sociedade possa reaprender a existir além da lógica das armas.

Nos bastidores, as negociações e os alinhamentos futuros serão movimentos de alto risco no xadrez da região. Se não houver uma concertação que repense o desenho de poder e restaure a autoridade civil, o Sudão continuará a ver sua juventude sacrificada às ambições armadas, e o ímpeto destrutivo das últimas décadas será transformado numa cicatriz que durará gerações.