Teerã anuncia tarifa no Estreito de Hormuz e acusa EUA de 'desespero'; UE alerta para avanços em E1
Teerã aprova tarifa no Estreito de Hormuz; UE condena expansão no E1 e alerta para risco à solução de dois Estados.
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Teerã anuncia tarifa no Estreito de Hormuz e acusa EUA de 'desespero'; UE alerta para avanços em E1
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, como em um lance decisivo no tabuleiro, as linhas estratégicas do Golfo e do Levante, o Parlamento de Teerã aprovou uma taxa de serviço para as embarcações que transitam pelo Estreito de Hormuz. A decisão, divulgada pelo porta-voz da Comissão para a Segurança Nacional e a Política Externa do parlamento iraniano, Hassan Ghashghavi, e repercutida pela agência IRNA, estabelece cobranças para navios vindos de países autorizados que utilizarem os corredores marítimos.
Segundo o texto aprovado, o artigo 3 do denominado 'Plano de ação estratégico para a segurança e o desenvolvimento do Estreito de Hormuz' prevê tarifas para serviços marítimos, ambientais, de fornecimento de combustível em condições especiais, seguros, segurança e outros serviços prestados na região. As taxas serão cobradas em riais iranianos ou em outra moeda que a República Islâmica considerar adequada. Em termos práticos, trata-se de um instrumento econômico e simbólico que projeta influência sobre a navegação comercial e aponta para um redirecionamento da tectônica de poder no estreito.
Paralelamente, a diplomacia iraniana tenta inserir a medida em um discurso mais amplo. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Araghchi, qualificou a pressão econômica americana como parte de uma tática de 'intimidação' repetitiva, atribuída à administração de Trump. 'A guerra econômica é um cenário recorrente e a velha tática de bullying da política americana', declarou à imprensa estrangeira, evocando um repertório de contra-argumentos que visa deslegitimar sanções e coerções externas.
Enquanto isso, na arena israelense e europeia, outro foco de tensão faz o alinhamento estratégico oscilar: o governo de Israel publicou um edital para a construção de mais de 1.200 unidades habitacionais no projeto de assentamento E1. A implementação do plano E1 tem o potencial de fragmentar ainda mais a Cisjordânia, isolar Jerusalém Oriental e minar as bases de uma solução de dois Estados. A alta representante para a política externa da União Europeia, Kaja Kallas, deixou clara a posição de Bruxelas: os assentamentos na Cisjordânia, inclusive a área E1, são ilegais segundo o direito internacional e incompatíveis com a prospectiva de paz duradoura.
A UE pediu a retirada do edital, a suspensão dos projetos de expansão dos assentamentos e a responsabilização dos autores das violências cometidas por colonos. Este conjunto de sinais — tarifas no Estreito de Hormuz, retórica de resistência de Teerã e a escalada de decisões urbanísticas em Jerusalém — compõe um cenário de múltiplos vetores de crise. Estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis e de uma arquitetura de poder que exige leitura de longo alcance.
Do ponto de vista estratégico, a tarifa sobre o tráfego marítimo funciona como uma peça capaz de alterar custos, rotas e alianças comerciais, enquanto a expansão de assentamentos em E1 representa um movimento territorial com efeitos políticos regionais imediatos. Ambas as dinâmicas exigem respostas calibradas: diplomáticas, jurídicas e, sobretudo, que avaliem as consequências no equilíbrio entre segurança, soberania e ordem internacional.
Permanece em aberto a questão de como as potências globais, particularmente os Estados Unidos, reagirão a estes desenvolvimentos, e se optarão por um novo ciclo de contenção ou por caminhos de diálogo que preservem a estabilidade dos corredores marítimos e a viabilidade da solução de dois Estados.

