Funeral de Ali Khamenei em Teerã: multidão, slogans em inglês e tensões regionais
Cerimônia fúnebre de Ali Khamenei em Teerã: multidão, faixas em inglês com pedidos de vingança e incertezas sobre a sucessão.
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Funeral de Ali Khamenei em Teerã: multidão, slogans em inglês e tensões regionais
Por Marco Severini — Em um cenário que combina liturgia pública e mensagem política calculada, prossegue em Teerã o segundo dia da cerimônia de despedida pelo ex-líder iraniano Ali Khamenei e por quatro membros de sua família, mortos no atentado de 28 de fevereiro atribuído a um ataque israelo-americano. As imagens divulgadas pela agência Tasnim, vinculada aos Pasdaran, mostram participantes agitando faixas com frases em inglês que incitavam a “matar Trump” e “matar Bibi”, um gesto de fúria que busca projetar uma mensagem além das fronteiras nacionais.
Entre as 5h30 de ontem e as 7h da manhã de hoje em Teerã (3–5h30 na Itália), a Tasnim reportou 7.141.000 viagens na rede metroviária, dado usado para sublinhar a magnitude da mobilização popular. A cerimônia de despedida na mesquita Imam Khomeini segue até as 20h locais, com peregrinos ainda utilizando o metrô para participar das orações.
Esta foi a primeira participação pública, durante as preces fúnebres, de três filhos do líder falecido — Mostafa, Masoud e Meisam — que compareceram para rezar por seu pai. Notavelmente ausente esteve o outro filho e indicado sucessor, Mojtaba Khamenei, que após a nomeação não vem mais sendo visto em público. A ausência de Mojtaba alimenta a percepção de opacidade em torno do processo sucessório, um elemento que, no meu julgamento, altera o equilíbrio silencioso do tabuleiro político interno.
As orações foram conduzidas pelo aiatolá Jafar Sobhani, de 97 anos, e se dividiram em três partes: primeiro em homenagem ao ex-líder, depois por sua filha Boshra, seu genro Mesbaholhoda Bagheri (marido de Hoda, outra filha de Khamenei) e Zahra Hadad Adel, esposa de Mojtaba Khamenei; por fim, uma terceira rodada dedicada à neta Zahra Mohammadi Golpaygani. As urnas com os corpos foram expostas em caixões de vidro na Grande Mesquita de Mosalla desde sábado, quando teve início o rito de dois dias.
O itinerário do funeral prevê sequência em Qom na terça-feira, e em seguida paradas nas cidades iraquianas de Najaf e Karbala na quarta-feira, com o enterro final em sua cidade natal, Mashhad, na quinta-feira. Tais movimentos configuram, simbolicamente, um desenho de influência que atravessa santuários e eixos xiitas, reforçando laços transfronteiriços num momento de alta tensão.
O presidente iraniano Masoud Pezeshkian descreveu o luto nacional como “a melhor prova da grandeza, dignidade e força do líder martirizado da revolução”, ressaltando também a ira que, segundo ele, o funeral provocou nos Estados Unidos e em Israel. Já o presidente Donald Trump, em entrevista à Axios, afirmou ter se surpreendido com cenas de choro no enterro e levantou a hipótese de que as lágrimas pudessem ser “falsas”.
Do ponto de vista estratégico, o espetáculo fúnebre funciona em dois níveis: internamente, como instrumento de consolidação de autoridade e mobilização popular; externamente, como comunicação dirigida a aliados e adversários — as faixas em inglês ilustram um propósito deliberado de alcance global. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro, em que religiões, memória e poder político se sobrepõem, redesenhando linhas de influência onde as fronteiras permanecem invisíveis.
Enquanto as cerimônias prosseguem, a ausência do sucessor visível e o tom beligerante das manifestações acrescentam incerteza à tectônica de poder regional. A pergunta estratégica que fica é se o luto, usado como alicerce político, abrirá espaço para uma escalada retórica que pode transbordar para ações concretas — uma questão que exigirá leitura atenta dos próximos movimentos.