Trump pode declarar fim das hostilidades com o Irã para driblar Congresso no limite dos 60 dias

Trump pode declarar fim das hostilidades com o Irã para evitar pedido ao Congresso ao alcançar o prazo de 60 dias; manobra legal e política em curso.

Trump pode declarar fim das hostilidades com o Irã para driblar Congresso no limite dos 60 dias

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Trump pode declarar fim das hostilidades com o Irã para driblar Congresso no limite dos 60 dias

Por Marco Severini — Em um movimento que revela o jogo de xadrez institucional em Washington, a administração de Trump estuda declarar formalmente encerradas as hostilidades com o Irã iniciadas em 28 de fevereiro, segundo relato de um alto funcionário norte-americano à NBC. A decisão chega à véspera do término do prazo de 60 dias previsto na Resolução sobre Poderes de Guerra, limite máximo que o presidente pode manter operações militares sem a autorização do Congresso.

Na audiência no Senado, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que "atualmente estamos em um cessar-fogo, o que, do nosso ponto de vista, suspende a contagem regressiva dos 60 dias". Fontes oficiais disseram igualmente à AFP que "as hostilidades iniciadas em 28 de fevereiro terminaram" e que não houve trocas de fogo entre forças americanas e iranianas desde 7 de abril.

Do ponto de vista jurídico e estratégico, trata-se de uma manobra calculada: declarar as operações encerradas permitiria à Casa Branca evitar a exigência formal de pedir autorização ao Congresso, mantendo, porém, a capacidade de lançar uma nova ação — potencialmente apresentada como operação distinta da chamada "Epic Fury", iniciada em fevereiro. É uma solução que lembra um lance de proteção no tabuleiro, onde se altera a configuração sem, formalmente, perder o controle das peças.

Constitucionalmente, apenas o Congresso tem poder para "declarar" guerra. A lei de 1973, porém, concede ao presidente autoridade para engajar forças americanas por razões de emergência — com a condição de buscar a autorização legislativa se o engajamento ultrapassar o prazo de 60 dias, salvo extensão ou suspensão desse prazo. A notificação oficial da Casa Branca ao Congresso sobre o início das operações, curiosamente, foi enviada apenas dois dias depois do início real das hostilidades.

Mesmo com o cessar-fogo, a Marinha dos EUA mantém o bloqueio no Estreito de Ormuz, uma peça-chave na arquitetura marítima e energética do Golfo Pérsico — um alicerce indispensável que revela a continuidade da pressão estratégica, apesar da suspensão das escaramuças diretas.

No plano político interno, os democratas tentaram repetidamente aprovar legislação para limitar os poderes militares do presidente contra o Irã, sem sucesso. Contudo, uma preocupação mais concreta para Trump vem de alas do próprio Partido Republicano: parlamentares conservadores já indicaram que podem pressioná-lo a solicitar formalmente a autorização do Congresso caso as operações ultrapassem o marco dos 60 dias.

Em síntese, o cenário que se desenha é o de um equilíbrio tenso entre prerrogativas executivas e freios legislativos — uma verdadeira tectônica de poder onde cada movimento é medido para preservar opções militares futuras sem, no entanto, abrir formalmente um novo capítulo de guerra. A decisão de declarar o fim das hostilidades pode ser interpretada como tentativa de redesenhar fronteiras institucionais invisíveis, mantendo intocados os alicerces operacionais que dão ao Pentágono e à Casa Branca margem de manobra.

Como analista, observo que este é um momento decisivo no tabuleiro: a jogada pretendida busca uma solução prática para um impasse constitucional, mas carrega riscos políticos e estratégicos significativos, sobretudo se interpretada pelo Congresso e por atores regionais como mera questão de forma e não de fundo.