UE Dividida: Vetos da Hungria e Eslováquia Congelam Ajuda de 90 Bi e Novo Pacote de Sanções à Rússia
Hungria e Eslováquia vetam liberação do empréstimo de 90 bi e travam novo pacote de sanções à Rússia, deixando a UE dividida sobre a Ucrânia.
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UE Dividida: Vetos da Hungria e Eslováquia Congelam Ajuda de 90 Bi e Novo Pacote de Sanções à Rússia
Por Marco Severini — A União Europeia permanece atravessada por uma fratura profunda no que diz respeito à Ucrânia, com dois movimentos de resistência — da Hungria de Viktor Orbán e da Eslováquia de Robert Fico — a colocarem-se como obstáculos ao consenso dos restantes 25 Estados‑membros. Em termos práticos, os primeiros‑ministros de Budapeste e Bratislava acusam Kyiv de não tomar medidas para reparar o oleoduto Druzhba, que atravessa o país em conflito e abastece com petróleo russo as refinarias húngaras e eslovacas; por isso, opõem‑se tanto ao vigésimo pacote de sanções contra Moscou quanto às alterações orçamentárias necessárias para a liberação do empréstimo de 90 bilhões de euros, sem o qual Kiev ficaria sem liquidez em cerca de dois meses.
Convém distinguir dois planos: o empréstimo em si já teve aprovação em votação com os 27 Estados‑membros favoráveis. O ponto crítico, porém, são as mudanças orçamentais para permitir a sua execução, que exigem unanimidade. Assim, o veto de dois sócios converteu uma operação técnica em um impasse político de alta fração.
No Conselho Europeu de hoje, que incluiu um encontro por videoconferência com o presidente Volodymyr Zelensky, a discussão estendeu‑se por cerca de uma hora e meia. O primeiro‑ministro português António Costa considerou o comportamento dos dois líderes dissidentes “inaceitável” e em desacordo com o princípio da cooperação leal consagrado pelos Tratados. Orbán e Fico, no entanto, não deram qualquer sinal de cedência.
As conclusões do Conselho sobre a Ucrânia foram adotadas por 25 Estados, excluindo Hungria e Eslováquia. O texto das conclusões é, em grande parte, de natureza reiterativa: não traz inovações substantivas e poderia ter sido redigido muito antes — sinal de uma diplomacia que repete alicerces já conhecidos frente a um tabuleiro em transformação. Há, igualmente, uma esperança implícita de que, com as eleições húngaras nas próximas semanas, a balança política em Budapeste mude e que Fico se torne mais permeável.
Zelensky dirigiu‑se aos líderes europeus com apreensão contida: “Há três meses a principal garantia financeira da Europa para a Ucrânia não funciona: o pacote de 90 bilhões para este e o próximo ano. Para nós é vital. É um recurso para proteger vidas humanas. Até hoje não sabemos com certeza se estes fundos serão desbloqueados”. Acrescentou que o vigésimo pacote de sanções está estagnado, perdendo uma oportunidade de aumentar a pressão sobre a Rússia e empurrá‑la em direção a uma paz real.
Nas conclusões, o único compromisso concreto refere‑se à expectativa de que a primeira liberação do empréstimo ocorra “até o início de abril”. Como superar o obstáculo da unanimidade para chegar a essa erogação permanece uma equação sem solução aberta ao diálogo político. Quanto às novas sanções, o texto se limita a um apelo à continuação do enfraquecimento da economia de guerra russa e à determinação da UE em manter a pressão.
Reiteram‑se, enfim, o apoio à independência e à integridade territorial da Ucrânia dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente e o compromisso de fornecer apoio político, financeiro, económico, humanitário, militar e diplomático. Mas, no atual momento, a tectônica de poder interna à UE revela‑se um fator decisivo: dois vetos podem congelar o mecanismo de ajuda e redesenhar, talvez temporariamente, o mapa da influência europeia sobre o conflito.


