Rússia Unida amplia poder na Duma enquanto bombas ucranianas atingem solo russo; Zelensky e Trump devem se reunir na ONU
Rússia Unida amplia maioria na Duma em eleições durante a guerra; mais de mil drones ucranianos atingem a Rússia. Zelensky e Trump devem se encontrar na ONU.
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Rússia Unida amplia poder na Duma enquanto bombas ucranianas atingem solo russo; Zelensky e Trump devem se reunir na ONU
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, sem alarde, as linhas de poder internas do Kremlin, o Partido Rússia Unida encaminha-se para uma maioria qualificada na renovação da Duma. Os resultados parciais divulgados ao longo do dia apontam para um triunfo robusto da formação apoiada por Vladimir Putin, em eleições marcadas pela ausência de concorrência efetiva e pela exclusão de forças claramente opositoras.
Com mais da metade das cédulas apuradas em uma das leituras iniciais, a legenda pró-governo registrou aproximadamente 57,8% dos votos — cifra que, em comunicados subsequentes da Comissão Eleitoral Central (CEC), surge também como 57,31% nos primeiros resultados oficiais. Esse patamar assegura ao Kremlin margem para promover alterações constitucionais e consolidar as arquiteturas institucionais que sustentam sua estratégia de poder, um movimento que, no tabuleiro da política, equivale a trocar peças para garantir um xeque contínuo ao adversário.
Numa corrida eleitoral que valeu também pelos territórios anexionados da Ucrânia, foram excluídas listas e candidaturas identificadas como abertamente contrárias ao conflito, entre elas a formação Jabloko. O cenário eleitoral relegou ao segundo plano o Partido Comunista da Federação Russa (KPRF), com aproximadamente 13,7% (ou 13,89% em outra apuração parcial), seguido pelo ultranacionalista LDPR e pela nova formação liberal Nova Gente, que apareceu com números próximos a 8%.
A CEC estimou uma participação superior a 56% do eleitorado, índice que supera as duas últimas legislativas (2016 e 2021). No sistema de votação eletrônica — objeto de críticas por possíveis fraudes — o partido do Kremlin obteve cerca de 49,06%, com Nova Gente alcançando perto de 15,42% e os comunistas 12,26%. Após a divulgação inicial, o líder de Rússia Unida, Dmitry Medvedev, afirmou que os resultados confirmam a confiança dos cidadãos na principal força política do país.
Do ponto de vista diplomático, o ministro Sergey Lavrov declarou confiança na continuidade da linha externa do Estado, rejeitando críticas ocidentais sobre o processo eleitoral e classificando como infrutíferas tentativas de deslegitimá-lo.
Ao mesmo tempo, a jornada eleitoral foi ensombrecida por um ataque ucraniano de larga escala: mais de mil drones lançados contra alvos no espaço russo. As autoridades locais reportaram ao menos duas mortes na região de Moscou, além de danos em uma refinaria na capital. Em território ocupado, um ataque atingiu um ônibus em Kherson, elevando a tensão em um front que expõe a fratura entre a retórica política e a realidade dos confrontos.
No plano externo, fontes citadas pela Axios relatam que o ex-presidente Donald Trump teria solicitado a Volodymyr Zelensky que interrompesse ataques contra refinarias russas, em discussões telefônicas recentes. Autoridades ucranianas indicam que os dois líderes se encontrarão à margem da Assembleia-Geral da ONU — um encontro que pode oferecer um quadro tenso e decisivo para a diplomacia multilateral, onde decisões e recuos se combinam com a precisão de um lance no tabuleiro.
O desenho político que emerge dessas eleições aponta para um fortalecimento institucional do poder central em Moscou, ao mesmo tempo em que a guerra transforma infraestruturas e rotas logísticas em alvos estratégicos. A tectônica de poder entre ações militares e consolidação política interna revela uma conjuntura em que cada movimento é calculado para preservar o núcleo do aparelho de Estado, erguendo alicerces que dificilmente serão abalados sem mudanças estruturais profundas.
Enquanto as contagens seguem e as leituras finais se consolidam, o que se observa é um reposicionamento das peças: a vitória eleitoral amplia mandatos e prerrogativas, as ofensivas aéreas relembram a vulnerabilidade do território, e as negociações discretas em palcos internacionais mantêm viva a possibilidade de desdobramentos diplomáticos que, à maneira de um xadrez de alta estratégia, podem redefinir fronteiras de influência sem trocar uma única fronteira física.

