Veto de Orbán e Fico trava empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia enquanto ataques com drones e raids atingem Zaporizhzhia e Kharkiv
Veto de Orbán e Fico bloqueia empréstimo de €90 bi à Ucrânia; ataques com drones atingem Kharkiv e Zaporizhzhia enquanto tensão sobre oleoduto Druzhba cresce.
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Veto de Orbán e Fico trava empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia enquanto ataques com drones e raids atingem Zaporizhzhia e Kharkiv
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que temporariamente, o tabuleiro da solidariedade europeia, o Conselho Europeu viu-se bloqueado pelo veto conjunto do primeiro‑ministro húngaro Viktor Orbán e do primeiro‑ministro eslovaco Robert Fico, impedindo a liberação do empréstimo de 90 bilhões de euros destinado à Ucrânia. A decisão, além de revelar fissuras políticas na arquitetura do apoio europeu, evidencia a disputa de poder entre compromissos pré‑acordados e interesses nacionais de curto prazo.
Ao término das sessões, Orbán deixou claro que a exigência de Budapeste não se limita à simples reabertura do fornecimento de petróleo pelo oleoduto Druzhba. Exige também garantias formais de que a Ucrânia tomará medidas que impeçam novas interrupções — uma demanda que transforma um fluxo energético em peça de barganha política. "Não se trata só de fazer chegar o petróleo até nós, precisamos de garantias da Ucrânia de que isso não voltará a ocorrer", declarou Orbán.
Enquanto as capitais debatem cláusulas e compromissos, o campo de batalha continuou ativo. A Força Aérea ucraniana reportou um novo ataque com 156 drones na noite entre quinta e sexta‑feira; das aeronaves não tripuladas, 133 foram abatidas ou neutralizadas por contramedidas eletrônicas. Ainda assim, 19 drones conseguiram atingir 13 alvos, e destroços de aparelhos interceptados caíram em sete localidades. Relatórios locais apontam ataques e danos materiais, sem um balanço final de vítimas.
Em Kharkiv, fontes municipais e agências de imprensa registraram impacto de um drone de combate no distrito de Shevchenkivskyi, próximo a uma escola: janelas estilhaçadas e uma inspeção em curso para avaliar danos e eventuais vítimas. Autoridades também relataram feridos após um ataque com drones contra uma ambulância na região — sinal de que a guerra continua a afetar infraestruturas críticas e a vida civil em pontos urbanos.
No tabuleiro diplomático, a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, negou relatos que a teriam colocado em conivência com o veto húngaro. Meloni enfatizou que a posição europeia continua de apoio integral à Ucrânia e defendeu a busca por flexibilidade bilateral para desbloquear o impasse: a reabertura do Druzhba, segundo ela, poderia ser o caminho para destravar o pacote financeiro.
Por sua vez, a presidente da Comissão Europeia recordou a condição acordada em dezembro: três Estados se comprometeram a não participar do empréstimo. Essa condição, segundo Bruxelas, foi respeitada; o problema atual reside no incumprimento da palavra de um só líder, que manteve o veto, deixando o mecanismo financeiro suspenso. A situação expõe a fragilidade dos alicerces diplomáticos quando uma única peça recusa mover‑se conforme o plano coletivo.
Como analista, interpreto este episódio como um movimento decisivo no tabuleiro estratégico europeu: energia transformada em moeda de poder, vetos nacionais que diluem a ação concertada e um conflito militar que continua a testar as linhas de defesa civil — uma tectônica de poder que exige respostas calibradas, pragmáticas e, acima de tudo, coordenadas. Sem uma retirada do impasse, corre‑se o risco de que as promessas financeiras se tornem labirintos burocráticos enquanto a guerra prossegue, redesenhando fronteiras invisíveis de influência e segurança.
Na próxima fase, será crucial observar se haverá concessões técnicas (garantias escritas sobre o oleoduto, mecanismos de supervisão) ou se o impasse exigirá novos instrumentos multilaterais para preservar tanto a estabilidade energética europeia quanto o apoio direto à resistência ucraniana.


