A guerra como motor do poder anglo‑americano: crise, hegemonia e a nova infraestrutura do poder econômico

Análise de Marco Severini: como a guerra atua como motor do unipolarismo anglo‑americano e o papel da nova infraestrutura tecnológica no poder econômico.

A guerra como motor do poder anglo‑americano: crise, hegemonia e a nova infraestrutura do poder econômico

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A guerra como motor do poder anglo‑americano: crise, hegemonia e a nova infraestrutura do poder econômico

Marco Severini – Em um movimento que remete aos alicerces clássicos da Realpolitik, torna‑se cada vez mais evidente que o centro do unipolarismo de matriz anglo‑americana opera a guerra não como exceção, mas como mecanismo periódico de reprodução de poder. Não falo de um teatro marginal: trato de um dispositivo político‑econômico que, nas nossas análises estratégicas, assume função estrutural.

A tradição teórica de Joseph Schumpeter — a famosa noção de "distruição criadora" — ajuda a compreender essa dinâmica: o capital financeiro vive ciclos nos quais a própria crise se converte em instrumento de reorganização. Hyman Minsky havia já adiantado outra pedra angular: a estabilidade prolongada gera fragilidade. Quando os desequilíbrios atingem um paroxismo, a crise deixa de ser incidente e torna‑se um fato a ser gerido por quem detém capacidade de tornar seletivamente suportáveis os custos.

Nesse tabuleiro, a guerra assume a função de mecanismo de transferência. Ao deslocar o conflito para além das fronteiras internas do sistema, cria‑se um processo de externalização das perdas — uma redistribuição global que preserva o núcleo ao custo da periferia e da semiperiferia. É exatamente essa assimetria sistêmica que explica por que os choques financeiros e geopolíticos têm impacto desproporcional fora dos Estados Unidos: os rendimentos e as pressões de mercado castigam com maior intensidade economias já fragilizadas.

Da perspectiva estadista, a estratégia já não é vencer em sentido absoluto; é preservar uma vantagem relativa. Os Estados Unidos, na minha leitura, aceitam que sua hegemonia possa sobreviver "ao ribasso": não mais prometem benefícios crescentes para atrair aliados, mas elevam o custo da autonomia e restringem margens de manobra. A crise, então, transforma‑se em uma alavanca política — como observou Naomi Klein, os choques são preferidos quando se quer impor reestruturações que, em tempos normais, seriam politicamente impraticáveis.

A fala de Christine Lagarde, nas horas que seguiram a ação descrita por diversos analistas como uma ofensiva israelo‑estadunidense contra o Irã, deve ser lida com atenção: "Não existe uma estrada para voltar aonde estávamos antes que o conflito explodisse." Não é apenas um diagnóstico: é uma declaração de irreversibilidade que redesenha expectativas e define a arena do próximo jogo.

Nesse contexto, a chave interpretativa de Immanuel Wallerstein sobre centro e periferia ilumina o padrão: as crises são absorvidas de maneira a preservar o núcleo e a transferir custos. A pergunta estratégica que emerge é simples e brutal: que novo equilíbrio está sendo desenhado e qual será o próximo motor dessa arquitetura? A minha hipótese — sustentada por sinais recentes nos mercados e na política tecnológica — é que o centro gravita agora em torno do controle da nova infraestrutura tecnológica que sustenta a economia global. Quem dominar essas estruturas define as regras do jogo.

Trata‑se, portanto, de uma transição onde a coercitividade militar e a superioridade financeira passam a somar‑se ao domínio das plataformas, cadeias de dados e padrões tecnológicos. É um redesenho de fronteiras invisíveis, uma tectônica de poder que combina peças militares, sancionadoras e tecnológicas num único movimento decisivo no tabuleiro. Para os observadores de longo prazo, a conclusão se impõe: a guerra voltou a ser, nas práticas hegemônicas contemporâneas, um motor de reestruturação do poder econômico.

Enquanto estrategistas e diplomatas recalibramos respostas, o desafio é perceber onde se situam as alavancas e quem dispõe de capacidade para moldar as regras. O futuro equilíbrio dependerá de quem conseguirá converter vantagem tecnológica em poder geopolítico sustentável — e de quem estará disposto a pagar o custo dessa conversão. Essa é, em última instância, a questão que define a próxima fase da ordem internacional.