Havana em apagão histórico abre portas aos investimentos da diáspora enquanto Trump evoca tomada da ilha

Apagão em Havana expõe crise energética; governo abre investimentos à diáspora enquanto Trump fala em 'tomar' Cuba. Análise estratégica e geopolítica.

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Havana em apagão histórico abre portas aos investimentos da diáspora enquanto Trump evoca tomada da ilha

Por Marco Severini — A Havana atravessa uma das fases mais delicadas das últimas décadas. Um apagão nacional que já dura mais de 24 horas expôs as fragilidades estruturais de um país submetido a uma combinação de escassez de combustível, infraestrutura obsoleta e pressões externas. A companhia elétrica estatal UNE atribui a paralisação a um déficit produtivo profundo, resultado de uma crônica falta de combustíveis que reduziu a oferta elétrica a menos da metade da demanda interna.

O quadro é agravado pelas restrições norte-americanas que, no âmbito de um embargo econômico de longa data, contribuíram para interromper fluxos de petróleo venezuelano que eram vitais para o abastecimento energético cubano. Nesse cenário de alicerces frágeis da diplomacia e da economia, duas movimentações de grande impacto político e simbólico surgiram quase em paralelo: as declarações beligerantes do presidente americano Trump e a inédita abertura de Havana a capitais da diáspora cubana.

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Em Washington, Trump usou linguagem enfática ao afirmar, em entrevista à imprensa, que seria um "grande honra tomar Cuba", acrescentando: "Se eu a liberto ou a tomo, penso que posso fazer o que quiser com ela." A retórica do chefe da Casa Branca classificou a ilha como uma "nação muito enfraquecida" e foi justificada por ele através da herança "violenta" atribuída ao regime dos irmãos Castro. Tal discurso reverbera no tabuleiro geopolítico, onde cada palavra pode ser um movimento calculado para redesenhar e acelerar resultados estratégicos.

Segundo relatos do New York Times, autoridades norte-americanas demonstraram ainda a vontade de ver o presidente cubano renunciar como condição para avançar negociações sobre o futuro da ilha — uma tática que lembra manobras anteriores na região, como as dirigidas à Venezuela. Fontes indicam, porém, que até o momento os Estados Unidos não teriam pressionado por medidas contra membros da família Castro, preferindo manter uma pressão seletiva e instrumental.

Do lado interno, o governo de Miguel Díaz-Canel anunciou uma decisão de alcance histórico: permitir que cubanos residentes no exterior e seus descendentes possam investir e possuir empresas privadas em Cuba. O ministro do Comércio Exterior, Oscar Pérez-Oliva, confirmou à NBC a intenção de preservar "relações comerciais fluidas" inclusive com empresas dos Estados Unidos.

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Trata-se de uma abertura sem precedentes à diáspora, especialmente concentrada na Flórida, que por décadas foi vista com desconfiança pelo poder central. A medida tem o objetivo pragmático de atrair investimentos capazes de modernizar infraestruturas dilapidadas — em particular a rede elétrica — e revitalizar setores estratégicos como turismo e mineração.

No terreno econômico interno, a crise energética obrigou a adoção de medidas de emergência, incluindo o racionamento de combustível que impacta toda a produção. "O bloqueio nos priva de financiamento, tecnologia e mercados", declarou Pérez-Oliva, lembrando que o embargo em vigor desde 1962 foi intensificado recentemente para atingir especificamente o abastecimento energético.

Mesmo com a pressão externa e o apagão, o processo de transição econômica em Cuba não está estagnado. Desde a reabertura de 2021, surgiram milhares de empreendimentos privados que sinalizam uma transformação lenta, porém persistente, no tecido econômico. Em termos geopolíticos, a ilha se converte num tabuleiro onde movimentos financeiros e retóricas estratégicas competem pela vantagem; qualquer passo em falso pode redefinir a tectônica de poder regional.

Para analistas diplomáticos, a combinação entre fragilidade estrutural e abertura controlada cria uma janela — estreita e volátil — para a inserção de capital externo, inclusive da diáspora. É um movimento que mistura pragmatismo econômico com delicados cálculos de soberania: permitir que o exílio aporte recursos e know-how, sem perder o controle político interno. A jogada é tão arriscada quanto necessária no atual momento em que a ilha vê seus alicerces testados.

Em suma, Cuba vive um momento de transição forçada: o apagão expõe vulnerabilidades, a convocação pública de Trump tensiona as relações diplomáticas, e a abertura à diáspora pode ser o movimento decisivo que reconfigura, por dentro, o futuro econômico da ilha.

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