Hungria e Eslováquia bloqueiam empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia; fissura na coesão europeia

Hungria e Eslováquia travam empréstimo de €90 bi à Ucrânia; Orbán usa oleoduto Druzhba como alavanca política às vésperas das eleições.

Hungria e Eslováquia bloqueiam empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia; fissura na coesão europeia

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Hungria e Eslováquia bloqueiam empréstimo de €90 bilhões à Ucrânia; fissura na coesão europeia

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, ainda que temporariamente, linhas de influência no tabuleiro europeu, o Conselho Europeu encerrou a manhã de trabalho sem avanços substanciais: Hungria e Eslováquia impediram o desbloqueio do empréstimo destinado à Ucrânia. A tentativa de persuasão do presidente do Conselho, António Costa, não foi suficiente para fazer com que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, removesse o veto.

O cálculo de Orbán é transparente e moldado por temporais políticos internos. Com eleições marcadas para 12 de abril, a retórica hostil à Ucrânia figura entre os pilares de sua campanha. A disputa ganhou uma dimensão técnica e simbólica com a questão do oleoduto Druzhba, severamente danificado por ataques, que interrompeu o fornecimento de petróleo a Budapeste. Orbán exige que a Ucrânia arque com os custos das reparações — uma exigência que nem mesmo a intervenção técnica da Comissão Europeia, que enviou engenheiros para avaliar os danos, conseguiu mitigar. A mensagem eleitoral do primeiro-ministro ficou explícita: “No oil, no coin”.

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Ao bloquear o empréstimo de 90 bilhões de euros, o eixo liderado por Budapeste encontra um aliado direto em Bratislava: o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, anunciou que manterá sua oposição mesmo se Orbán vier a perder nas urnas. A coalizão resulta numa conclusão do Conselho assinada por 25 líderes, uma maioria que, porém, se vê incapaz de contornar o veto bilateral.

Para a Ucrânia, trata-se de recursos vitais: o pacote — financiado por dívida comum — destina 60 bilhões de euros ao apoio militar e 30 bilhões a assistência macrofinanceira e sustentação orçamentária, com vistas a subsidiar os anos-chave de 2026 e 2027. A proposta condiciona o desembolso ao prosseguimento de reformas estruturais e ao combate à corrupção. Nas linhas finais das conclusões, os líderes reiteraram que o “futuro da Ucrânia é na União Europeia”, uma declaração política de alto valor simbólico, porém de alcance prático limitado diante do veto.

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Analiticamente, estamos diante de uma movimentação que revela duas dinâmicas complementares: a tectônica de poder regional e a instrumentalização doméstica da política externa. O uso do oleoduto Druzhba como alavanca evidencia como infraestruturas energéticas podem servir de peças-chave em um jogo de xadrez geopolítico — um movimento decisivo que busca trocar hidrocarbonetos por moeda política.

As consequências são múltiplas. Internamente, a coesão da UE sofre erosões, abrindo fraturas que podem ser exploradas por atores externos; externamente, a demora no apoio financeiro compromete a capacidade de resistência ucraniana num momento em que a guerra permanece ativa e custosa. A resposta europeia dependerá agora da capacidade diplomática de articular compensações, salvaguardas legais e garantias técnicas que removam o pretexto das reclamações húngaras e eslovacas sem sacrificar princípios fundamentais do projeto europeu.

Num tabuleiro onde arquitetura política e cartografia energética se cruzam, a próxima jogada será decisiva: ou surge um compromisso técnico que neutralize a alavanca energética, ou a União Europeia verá prolongar-se uma disputa que, além de simbólica, tem impacto imediato sobre a resiliência de um país em guerra.

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