Ig Nobel transfere-se de Boston para Zurique em 2026: efeito Trump e riscos a viajantes motivam mudança
Depois de 35 anos em Boston, os Ig Nobel mudam para Zurique em 2026 devido a custos, restrições de vistos e riscos a viajantes internacionais.
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Ig Nobel transfere-se de Boston para Zurique em 2026: efeito Trump e riscos a viajantes motivam mudança
Depois de 35 anos em solo norte-americano, os conhecidos prêmios Ig Nobel — a celebração bem-humorada da pesquisa científica que "primeiro faz rir e depois faz pensar" — anunciaram uma mudança estratégica no seu palco: a cerimônia será realizada em Zurique, Suíça, a partir de 2026. A decisão, oficializada pelo fundador e mestre de cerimônias Marc Abrahams e repercutida pela revista Science, revela uma combinação de fatores financeiros, logísticos e geopolíticos que redesenham o mapa dos eventos científicos internacionais.
Há muito tempo em gestação por razões orçamentárias e pela necessidade de renovar a equipa organizadora, a transferência tornou-se imperativa quando se somaram os recentes riscos às viagens internacionais. Segundo Abrahams, a proposta inicial converteu-se num movimento concreto quando "a situação nos Estados Unidos começou a ficar insustentável". Em 2025, quatro das dez equipas vencedoras recusaram o convite para viajar aos EUA, invocando guerras, restrições de vistos e apreensões relacionadas às políticas de imigração e fronteira.
O episódio não é mero contratempo logístico: trata-se de um sinal da tectônica de poder que afeta até as cerimônias científicas de menor gravidade protocolar. Houve ataques dos EUA ao Irã e um endurecimento do controlo nas fronteiras norte-americanas, com viajantes internacionais submetidos a interrogatórios e, por vezes, expulsos. Abrahams afirmou que não poderia, em "boa consciência", pedir que vencedores e jornalistas arriscassem deslocar-se sob tais condições.
O caso do ecólogo italiano Luca Luiselli, vencedor do Ig Nobel 2025 por um estudo inusitado sobre preferências alimentares de lagartos africanos — que, segundo a pesquisa, prefeririam pizza quatro queijos — é sintomático. Luiselli recusou a cerimônia do ano anterior por sobreposição de compromissos e por receio de ser retido na fronteira devido a críticas públicas ao presidente Trump. "Neste momento, é demasiado arriscado para um europeu ir aos Estados Unidos se não concorda com Trump", declarou o cientista, reproduzindo um sentimento compartilhado por outros premiados.
Do ponto de vista estratégico, a mudança para Zurique representa mais do que relocalização: é uma manobra defensiva e projetiva. Em termos de diplomacia cultural, deslocar um evento que celebra a universalidade da ciência para território europeu reduz a exposição a medidas de controlo migratório seletivo e alarga o campo de atuação a equipas e públicos que se sentem vulneráveis às políticas externas dos EUA. É também um ajuste financeiro — o tabuleiro orçamentário exige novos movimentos para manter a viabilidade do prêmio.
Enquanto o público sorri com os estudos mais inusitados do ano, nos bastidores realiza-se um xadrez de decisões: alinhar segurança, liberdade de circulação e sustentabilidade financeira para assegurar que a cerimônia continue a cumprir sua função iconoclasta e reflexiva. A relocalização dos Ig Nobel sugere que a arquitetura dos eventos científicos transnacionais depende, cada vez mais, das fragilidades e das escolhas políticas das grandes potências.
Para além do humor, a mudança faz emergir questões de princípio: até que ponto as políticas de um Estado anfitrião podem condicionar o acesso à ciência global? A resposta que se desenha em Zurique é clara: preservar a circulação de ideias e participantes tornou-se prioridade estratégica para manter vivo o espírito dos Ig Nobel.


