Na Índia, o esterco de vaca e o biogás viram peças-chave para cozinhar sem GNL
Na Índia, o biogás feito com esterco de vaca alimenta fogões e reduz dependência do GNL, reforçando autonomia rural e segurança energética.
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Na Índia, o esterco de vaca e o biogás viram peças-chave para cozinhar sem GNL
Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a resiliência local quanto as linhas invisíveis da tectônica de poder global, a Índia tem recorrido massivamente ao biogás produzido a partir do esterco de vaca para minimizar os efeitos da crise no suprimento de combustíveis domésticos. A história de Gauri Devi, agricultora de Nekpur, no estado de Uttar Pradesh, torna-se um exemplo concreto desse movimento decisivo no tabuleiro energético.
Gauri, 25 anos, cozinha em um fogão alimentado por um pequeno sistema de biogás que ela mesmo opera no terreiro de sua casa. Misturando estrume seco com água, ela alimenta um digestor subterrâneo — uma cisterna do tamanho aproximado de um carro, coberta por um tanque de armazenamento — onde fermentação anaeróbica produz metano. O gás é conduzido por tubulação até a cozinha: o resultado é a capacidade de preparar de tudo, do chá às lentilhas, sem depender de uma botija de gás.
Nos últimos dias, a vulnerabilidade logística — agravada por tensões em rotas como o Estreito de Hormuz, por onde transita grande parte do GNL importado — expôs os alicerces frágeis da segurança energética indiana. A Índia consome mais de 30 milhões de toneladas de GNL por ano e importa mais da metade desse volume. A interrupção de entregas, a compra por pânico e o mercado negro têm forçado famílias urbanas e rurais a esperar horas por uma botija.
Mas a resposta de longo prazo vem de uma política que remonta aos anos 1980. Nova Délhi incentivou o desenvolvimento do biogás em áreas rurais e subsidiou mais de cinco milhões de unidades que convertem resíduos agrícolas em combustível de cozinha e em lodos ricos em nitrogênio, valiosos como fertilizante. Em seu celeiro, Gauri armazena o resíduo seco que depois usa nos campos — um ciclo que reforça a autonomia local e reduz a dependência das cadeias internacionais.
Produtores locais confirmam a eficácia prática. Pramod Singh, agricultor que desde 2025 opera um sistema de biogás para seis pessoas, alimenta seu digestor diariamente com 30 a 45 quilos de esterco de quatro vacas. "O esterco é realmente excelente", diz ele, lembrando que o subproduto — os lodos — virou um recurso estratégico ao tempo em que o comércio global de fertilizantes sofre com choques ligados à guerra no Oriente Médio. "Os lodos são ouro negro", afirma Pritam Singh, funcionário do setor agrícola.
Num país onde a agricultura emprega mais de 45% da força de trabalho e que, com 1,4 bilhão de habitantes, abriga um dos maiores rebanhos do planeta, a escalada do biogás tem uma lógica econômica e cultural. Em muitas regiões, o esterco de vaca e a urina já são usados tradicionalmente para reboco de paredes, rituais e combustíveis, o que facilitou a adoção dos digestores compactos.
Do ponto de vista estratégico, Nova Délhi move peças em várias frentes: além dos pequenos sistemas rurais — que custam entre 25.000 e 30.000 rúpias (cerca de 225–270 euros) e muitas vezes são altamente subsidiados —, decenas de grandes plantas de biogás estão em construção com investimentos na casa dos milhões de dólares. O país, terceiro maior emissor de gases do efeito estufa depois de China e EUA, acelerou essa agenda após comprometer-se com a neutralidade de carbono até 2070.
Há aqui uma lição de cartografia política: enquanto o mapa mundial do combustível se desloca por rotas marítimas e contratos de importação, nas vilas indianas redesenham-se fronteiras invisíveis da autonomia energética. Não se trata apenas de substituir um insumo, mas de fortalecer uma infraestrutura distribuída que reduz riscos e aumenta resiliência social. É um movimento que combina tradição, economia local e cálculo estratégico — um pequeno, mas significativo, modelo de rearranjo no grande tabuleiro global.
Se a noite seguinte trouxer outro atraso nas entregas de GNL, nas casas como a de Gauri Devi o fogo continuará aceso — alimentado por um ciclo ancestral que hoje assume papel geopolítico. A combinação de políticas públicas, aceitação cultural e lógica econômica transforma o que era visto por vezes como alternativa menor em peça-chave de estabilidade.