Índia inicia o maior censo da história com mais de 3 milhões de recenseadores
Índia inicia o maior censo da história: mais de 3 milhões de agentes em operação para mapear habitações e orientar políticas públicas.
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Índia inicia o maior censo da história com mais de 3 milhões de recenseadores
Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura, em escala civil, as linhas do poder e da governança, a Índia deu início, no começo de abril, ao que é apresentado como o maior censo da história. Mais de três milhões de funcionários foram mobilizados para um levantamento porta a porta destinado a mapear as habitações e fornecer a base factual para políticas públicas nos próximos anos.
Esta primeira etapa, cujo custo estimado é de 1,05 bilhões de euros, concentra-se no recenseamento de imóveis — das megalópoles aos povoados mais remotos — sob condições logísticas e climáticas adversas, com temperaturas que já superam os 35 °C em diversas regiões. Cada agente receberá cerca de 212 euros pelo serviço, e a rotina exige que visitem entre 20 e 25 famílias ao dia.
No tabuleiro urbano de Nova Deli, a pressão térmica, a desconfiança dos cidadãos e os obstáculos logísticos formam um cenário que exige mais do que apurações numéricas: demanda tato diplomático. Em Bangalore, o professor Sheikh Shavali, 50 anos, percorre os becos do aglomerado conhecido como Maya Bazaar com um boné para mitigar o sol. 'Este trabalho é o meu modesto contributo para ajudar estas pessoas. Se os dados forem bem recolhidos, poderemos desenhar intervenções adequadas', afirma. No mesmo bairro, apesar das condições sanitárias precárias — com fossas a céu aberto e longas distâncias até sanitários públicos — a maioria das famílias possui pelo menos um smartphone.
Para a primeira vez em sua longa história, o processo está ancorado em um aplicativo móvel dedicado. A ferramenta promete acelerar a sincronização e a validação dos registros, mas já apresenta falhas pontuais. Trabalhadores como Anandi A. asseguram que a aplicação é 'fácil de usar' e permite inserir os dados de uma família em cinco a dez minutos; Punith, responsável pela formação de agentes em Bangalore, recorda que censos anteriores, como o de 2011, demandavam meses para verificação e cruzamento de informações. 'Agora, em poucas horas, sincronizo tudo e o supervisor valida: o censo está concluído', explica.
Durante as formações, as instruções enfatizam postura e protocolo: apresentar-se com cortesia, exibir um documento oficial, vestir-se apropriadamente, falar com calma e tranquilizar os cidadãos sobre a proteção dos dados. Em caso de recusa, a diretriz é recuar e propor retorno posterior, em vez de forçar a interação. Vignetas como a do agente Verma, que anotou os números das casas após portas fechadas e residências ocupadas por crianças, ilustram a fricção prática entre a máquina estatal e a vida cotidiana.
O questionário da fase inicial focaliza condições de habitação: número de cômodos, acesso à internet, serviços sanitários, abastecimento de água e combustíveis para cozinhar. A segunda fase, programada para começar em 1 de março de 2027, aprofundará variáveis socioeconômicas e demográficas, incluindo o sensível tema das castas, cuja coleta e interpretação exigirão cuidados políticos e estatísticos refinados.
Num nível geopolítico e interno, este censo é um movimento de alta importância estratégica: mais do que números, representa um redesenho invisível das prioridades públicas e dos alicerces que sustentam a política social. No grande tabuleiro indiano, o êxito operacional e a integridade dos dados determinarão futuros passos de governo, investimentos e abordagem às desigualdades — uma tectônica de poder cuja precisão será decisiva.