Irã é eleito vice-presidente da Conferência da ONU sobre o TNP; EUA chamam escolha de "vergonhosa"
Irã é eleito vice-presidente da Conferência do TNP na ONU; EUA criticam escolha como 'vergonhosa' e Teerã rebate acusações.
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Irã é eleito vice-presidente da Conferência da ONU sobre o TNP; EUA chamam escolha de "vergonhosa"
Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento que reconfigura, ainda que simbolicamente, as linhas de influência no tabuleiro diplomático, a República Islâmica do Irã foi eleita nesta semana vice-presidente da 11ª Conferência de Revisão da implementação do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), realizada nas sedes da ONU em Nova York.
O pleito, ocorrido no primeiro dia do encontro — iniciado em 27 de abril e previsto para se encerrar em 22 de maio de 2026 — integrou a nomeação de 34 vice-presidências. O presidente da conferência é o embaixador do Vietnã nas Nações Unidas, Do Hung Viet, e a escolha do Irã foi formalizada pelo denominado "grupo dos Estados não-alinhados e outros Estados".
A indicação provocou reações veementes por parte dos Estados Unidos. Christopher Yeaw, subsecretário-assistente do Escritório americano para Controle de Armamentos e Não Proliferação, qualificou a eleição como "extremamente vergonhosa" e uma "mancha para a credibilidade desta conferência", recordando, numa linguagem firme, as reservas históricas norte-americanas sobre a conduta iraniana relativa às obrigações nucleares.
Do lado de Teerã, a réplica foi imediata e categórica: as acusações norte-americanas foram descritas como "infundadas e politicamente motivadas". O governo iraniano sublinhou o direito de participação plena nos fóruns multilaterais e rejeitou tentativas de exclusão que, segundo sua visão, minariam os alicerces do diálogo internacional.
É necessário, porém, analisar o episódio com serenidade estratégica. A participação e a eleição do Irã nas instâncias administrativas desta conferência não alteram, por si só, as disposições técnicas do TNP, mas representam um movimento simbólico de peso: na arquitetura das negociações, símbolos influenciam percepções e ampliam a margem de manobra política. Trata-se de um lance no tabuleiro onde a tectônica de poder regional e as alianças globais ganham nova tessitura.
Recorde-se que a Conferência de Revisão é um dos fóruns centrais para avaliar o cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados partes do Tratado, incluindo obrigações de desarmamento, o combate à proliferação e a promoção do uso pacífico da energia nuclear. É nesse espaço que se confrontam memórias históricas, demandas por verificações técnicas e interesses estratégicos de potência.
Nos bastidores, segundo interlocutores diplomáticos, houve esforços para impedir a participação iraniana na conferência. Esses esforços, contudo, não prosperaram, mostrando como os cânones multilaterais — ainda que frágeis — continuam a prover mecanismos para a inclusão mesmo quando a disputa política é intensa.
Em suma, a eleição do Irã como vice-presidente da conferência é mais do que um gesto protocolar: é um movimento que altera, mesmo que modestamente, a correlação de forças simbólicas no debate sobre não proliferação. Para atores externos e observadores, resta acompanhar se esse papel permitirá a Teerã espaço adicional para influenciar textos e agendas, ou se permanecerá sobretudo um marcador de tensão entre potências. No tabuleiro da diplomacia, cada peça reposicionada exige avaliação cuidadosa dos próximos lances.