Irã ameaça pena de morte para quem filmar danos de ataques aéreos; controle da informação vira novo front

Irã ameaça pena de morte a quem fotografar ou filmar danos de ataques; medida visa controlar informação e punir suposta colaboração com inimigos.

Irã ameaça pena de morte para quem filmar danos de ataques aéreos; controle da informação vira novo front

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Irã ameaça pena de morte para quem filmar danos de ataques aéreos; controle da informação vira novo front

Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha os alicerces da batalha pela narrativa, o Irã anunciou que quem fotografar ou filmar os danos causados por raids aéreos pode ser condenado à pena de morte e ter todos os bens confiscados. A declaração foi feita pelo porta-voz da Magistratura iraniana, Asghar Jahangir, citado pela agência Fars, e marca um endurecimento jurídico que transforma cidadãos e testemunhos em peças do tabuleiro estratégico.

Segundo Jahangir, “para aqueles que fornecem informações ao inimigo tirando fotografias ou filmando, a lei de agravamento das penas por espionagem prevê a pena capital e a confiscação de todos os bens”. A justificativa oficial é ostensivamente operacional: quando se fotografam as áreas atingidas, “o inimigo é informado de que o alvo foi localizado corretamente”. Nesta formulação, a circulação de imagens torna-se, aos olhos do Estado, equivalente à colaboração com serviços de inteligência estrangeiros.

O anúncio ocorre num contexto de escalada militar que afectou centros governamentais e zonas residenciais, com ataques atribuídos a operações conjuntas entre Israel e Estados Unidos, segundo relatos recentes. Vídeos e testemunhos publicados por cidadãos comuns nas redes sociais — que costumam oferecer a visão mais imediata e crua do impacto — seriam agora um instrumento a ser neutralizado por via legal e repressiva.

Essa linha dura insere-se numa estratégia mais ampla de controle da informação. Nas últimas semanas, o regime intensificou a repressão digital e já havia recorrido a intermittências de internet durante episódios de protesto. Em paralelo, a legislação iraniana prevê a pena capital para um leque amplo de delitos considerados de segurança nacional, incluindo a chamada “colaboração com potências estrangeiras” e atos rotulados como “corrupção na terra”. Assim, filmar e divulgar imagens de ataques pode ser enquadrado como ato subversivo, passível do mais severo castigo.

O quadro jurídico e punitivo não é um argumento isolado; é parte de uma tectônica de poder que visa silenciar evidências e moldar percepções internas e externas. Organizações de direitos humanos denunciam há meses o uso crescente da execução como instrumento político. A ONG Amnesty International reportou dezenas de manifestantes sob risco de execução após processos rápidos e frequentemente irregulares, com relatos de confissões extraídas sob coação.

Em 18 de março, o regime avançou com execuções de três pessoas, entre as quais um jovem de 19 anos — membro da seleção nacional de luta livre — acusadas de operar em favor dos Estados Unidos e de Israel. Essas medidas servem tanto como punição quanto como mecanismo intimidador para desmobilizar dissidência e reduzir a visibilidade das consequências humanitárias dos ataques.

De um ponto de vista estratégico, trata-se de mover uma peça decisiva no tabuleiro: ao controlar imagens e relatos, o Estado busca impedir o contágio simbólico que mobiliza indignação e solidariedade. A consequência é dupla — contém narrativas adversas e transforma a documentação cidadã em risco existencial para quem a produz.

O cenário abre questões profundas sobre a relação entre segurança, verdade e poder. Em tempos de guerra híbrida e de redes instantâneas, o ato de testemunhar tornou-se, paradoxalmente, um campo minado legal. A diplomacia informada exige, portanto, não apenas o mapeamento dos eventos, mas a compreensão das regras que reescrevem o próprio acesso à evidência. O Irã, com esta medida, não apenas reprime imagens: redesenha fronteiras invisíveis da informação.

Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.