Israel pulveriza campos no Golan, Síria e Líbano: herbicidas criam 'zona morta' e provocam ecocídio agrícola
Análise: aeronaves israelenses pulverizaram herbicidas no Golan e no Líbano, criando zonas mortas e detectando níveis elevados de glifosato.
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Israel pulveriza campos no Golan, Síria e Líbano: herbicidas criam 'zona morta' e provocam ecocídio agrícola
Marco Severini — Em movimentos que redesenham, silenciosamente, linhas de controle no Levante, aeronaves agrícolas israelenses sobrevoaram, em baixíssima altitude, áreas rurais próximas às zonas de fronteira em janeiro e fevereiro de 2026, liberando substâncias químicas sobre cultivos. Imagens de satélite e registros locais mostram claramente um rastro branco deixado atrás dos aparelhos e, em poucos dias, campos inteiros amareleceram e morreram.
Na província de Quneitra, nas Colinas do Golan sírio, cerca de 297 famílias agrícolas — pequenos produtores que dependem das colheitas para sobreviver — relataram perdas que somam dezenas de hectares. A descrição é a de um dano rápido e amplo: plantações secas, solo contaminado e meios de subsistência comprometidos.
A ONG holandesa PAX, especializada em monitoramento de conflitos, realizou uma análise de imagens de satélite e mapeou uma faixa contínua de vegetação danificada equivalente a aproximadamente 55 quilômetros de extensão, de sul a norte das altitudes do Golan. Wim Zwijnenburg, chefe do projeto de desarmamento da PAX, afirmou: "Seguimos essa linha de vegetação danificada por cerca de 55 km. Estimamos que entre seis e dez quilômetros quadrados foram pulverizados com herbicidas, grosso modo o dobro da superfície do Central Park, em Nova York. O que foi criado ali é, de fato, uma zona morta na fronteira com Síria e Líbano, presumivelmente por razões de segurança."
Do outro lado da fronteira, no Líbano, análises laboratoriais conduzidas pelos ministérios da Agricultura e do Ambiente, com amostras coletadas em parceria com a UNIFIL, detectaram concentrações de glifosato entre 20 a 30 vezes superiores aos parâmetros de referência locais e internacionais. Técnicos e autoridades ambientais locais descrevem um padrão consistente com pulverizações aéreas direcionadas, mais que com deriva acidental.
Os relatos colidem com a narrativa canônica de medidas de segurança: o argumento de defesa é invocado para justificar intervenções que, na prática, produzem um impacto ambiental e humano profundo. A criação de uma faixa despovoada de biomassa cultivada — um "corredor morto" — constitui tanto uma tática de despejo da presença humana quanto uma alteração duradoura da ecologia local.
Esse episódio insere-se num quadro mais amplo. Desde 1967, políticas e operações militares associadas a Tel Aviv têm deixado um rastro de destruição de patrimônios agrícolas e ecossistemas na região palestina e nas áreas ocupadas. Estimativas apontam para milhões de oliveiras perdidas e práticas de expropriação que configuram um ecocídio progressivo das comunidades rurais.
Do ponto de vista jurídico e geoestratégico, há duas frentes a considerar. Primeiro, a dimensão humanitária e ambiental: a pulverização de herbicidas em zonas de fronteira amplia o espectro de responsabilidade internacional por danos ambientais transfronteiriços. Segundo, a dimensão simbólica e prática: o ato cria, no tabuleiro regional, alicerces frágeis para uma nova cartografia de exclusão; cada hectare convertido em terra morta desloca populações, altera rotas de abastecimento e modifica contingências militares futuras.
O silêncio ou a resposta lenta da comunidade internacional — governos, organizações multilaterais e órgãos de fiscalização ambiental — expõe uma lacuna na governança global que permite que medidas de segurança se transformem em ferramentas de coerção ambiental. É preciso que investigações independentes, acesso a locais afetados e monitoramento contínuo por organismos imparciais sejam garantidos. Sem isso, o que se apresenta como uma manobra táctica em baixa altitude pode consolidar, a médio prazo, um redesenho de fronteiras invisíveis cujos custos serão pagos por civis e ecossistemas.
Em termos práticos: os agricultores de Quneitra exigem reparação, perícias de remediação de solo e garantias de não repetição. Internacionalmente, cabe aos atores com credenciais científicas e legais traduzir evidências em medidas concretas. No tabuleiro diplomático, cada movimento inobservado hoje pode tornar-se, amanhã, um precedente difícil de reverter. A estabilidade regional exige mais do que justificativas de segurança; exige responsabilização e preservação dos alicerces vivos da sociedade.
Israel, herbicidas, Quneitra, Golan, glifosato, ecocídio, PAX e UNIFIL — estas palavras marcam pontos de inflexão numa narrativa que, por excesso de conveniência política, tende a ser varrida para debaixo do tapete das prioridades internacionais.