Libertação de Siham Abu Salem: relato de 17 dias de tortura na prisão de Damon e anos de sofrimento em Gaza
Libertação de Siham Abu Salem: relato de 17 dias de tortura na prisão de Damon e sofrimento prolongado em Khan Younis.
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Libertação de Siham Abu Salem: relato de 17 dias de tortura na prisão de Damon e anos de sofrimento em Gaza
Por Marco Severini — 27 de março de 2026
Em uma cena que revela as fraturas humanitárias e as alavancas de poder por trás do conflito, foi libertada a senhora Siham Abu Salem, de 71 anos, residente em Khan Younis, na Faixa de Gaza. Presa a 14 de fevereiro de 2024 durante um deslocamento forçado, ela passou um ano e oito meses no sistema carcerário israelense e deixou relatos que iluminam aspectos pouco visíveis da dinâmica de poder no terreno.
O testemunho de Siham Abu Salem é duro e contém elementos que, do ponto de vista estratégico, devem ser inscritos num mapa das consequências políticas do conflito: o êxodo iniciado em 7 de outubro, quando os bombardeios em Khan Younis se intensificaram, obrigou sua família a múltiplas mudanças de refúgio até encontrarem abrigo no hospital Nasser. Ali, confinados em poucos metros quadrados, viveram condições humanitárias extremas — um alicerce frágil sobre o qual se ergueu a decisão de evacuação.
Uma semana antes da prisão, um episódio marcou a cadeia de comando e o clima de medo: um jovem mensageiro que entregava um aviso de evacuação foi executado, espalhando pânico entre os civis. Ainda assim, os deslocados foram forçados a deixar o hospital em meio a cenas de destruição e corpos nas ruas — um deslocamento que, em termos de arquitetura de controle, funcionou como pré-condição para detenções em postos de controle.
No momento do aprisionamento, Siham foi parada em um bloqueio junto com duas de suas filhas; crianças foram deixadas chorando na rua. O que se seguiu está contado com a frieza de quem sobreviveu: revista corporal integral e tratamentos degradantes, apesar da idade avançada e de comorbidades crônicas.
Foram 17 dias de interrogatório na prisão de Ashkelon, segundo seu relato. Durante esse período, ela descreve formas de tortura psicológica e física — insultos, ameaças à honra, cusparadas e ameaças de estupro dirigidas a uma de suas filhas. Após essa fase inicial, ocorreu a transferência para a prisão de Damon, onde as condições de detenção se agravaram: repressões recorrentes, confisco de bens essenciais e restrições sistemáticas às detentas.
Um dos episódios mais pungentes foi o reencontro com a filha Susan dentro do cárcere. O encontro, por breve que tenha sido, desabou em pranto coletivo entre as detentas. No entanto, no dia seguinte, Susan foi colocada em isolamento, apesar de sofrer de doenças crônicas como diabetes e hipertensão; a mãe ficou sem notícias dela por 110 dias.
Ao relato das condições carcerárias soma-se a memória pessoal: Siham carrega a perda de dois filhos, mortos anteriormente e lembrados como mártires pela família. Essa combinação de sofrimento íntimo e exposição pública desenha um retrato onde a tectônica do poder se cruza com a dor civil — um movimento decisivo no tabuleiro que molda percepções e iniciativas políticas.
Como analista, observo que episódios assim afetam o capital moral das estratégias estatais e alimentam ciclos de radicalização. A libertação de Siham Abu Salem é um evento localizado, mas simbólico: expõe as práticas de detenção e interrogação que operam como instrumentos de controle e economia de poder. Em termos de diplomacia, trata-se de um lembrete sobre a urgência de preservar os alicerces da dignidade humana mesmo em contextos de conflito.
O caso também oferece um parâmetro para interlocuções internacionais: a condição dos prisioneiros civis, a saúde e os direitos básicos devem permanecer no centro de qualquer agenda de estabilidade. A memória do que ocorreu com Siham e sua família será, sem dúvida, uma peça relevante nas negociações humanitárias e na cartografia política que seguirá nas próximas semanas.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia. Seu olhar combina história, Realpolitik e a serenidade exigida por quem acompanha decisões de Estado em ambientes turbulentos.