Marc Botenga desafia a UE no Parlamento: por que crianças do Gaza, Líbano e Palestina não são prioridade?

Marc Botenga acusa a UE de dupla moral e exige respostas sobre Gaza, Israel, Irã e as prioridades humanitárias no Parlamento Europeu.

Marc Botenga desafia a UE no Parlamento: por que crianças do Gaza, Líbano e Palestina não são prioridade?

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Marc Botenga desafia a UE no Parlamento: por que crianças do Gaza, Líbano e Palestina não são prioridade?

Por Marco Severini — No tabuleiro diplomático europeu, poucas vozes mantêm a mesma clareza estratégica e a mesma indiferença ao verniz burocrático quanto a de Marc Botenga. Deputado belga do Parti du Travail e membro do grupo The Left, Botenga ocupa a coordenação do grupo para os Assuntos Exteriores e vem convertendo cada intervenção em peça de acusação contra a conduta da União Europeia no teatro do Médio Oriente.

Em 14 de março de 2025, durante um debate sobre a crise humanitária em Gaza, Botenga confrontou, com visível indignação, o então ministro das Relações Exteriores da Polônia, Adam Szłapka, que foi visto rindo enquanto se discutia a morte de civis palestinos. “Ele está rindo enquanto discutimos a morte de inúmeros palestinos, de uma população reduzida à fome. Também os palestinos são seres humanos, deveria envergonhar-se!”, bradou o parlamentar. A intervenção não foi um arroubo retórico: foi um movimento calculado no tabuleiro político, destinado a revelar uma incongruência moral.

Botenga tem acusado, repetidamente, que a União Europeia age com dois pesos e duas medidas. Ao responder à declaração de Kaja Kallas — que, em visita a Tel Aviv, afirmou que Europa e Israel são “very good partners” —, ele dispensou retórica diplomática em favor de franqueza cortante: “Partners in what? In genocide? In ethnic cleansing?”. O vídeo do seu ataque político viralizou, circulando por toda a Europa, porque expõe uma dissonância entre a linguagem oficial e os efeitos concretos da política externa europeia.

No núcleo da crítica de Botenga está o tema das sanções e das exceções que, segundo ele, a União Europeia concede a aliados que violam normas internacionais. Ele desmontou a justificativa de Kallas — de que alterar o quadro de relações com Israel exigiria unanimidade dos 27 — classificando-a como um pretexto para a inação. A acusação é precisa: a UE impõe sanções a muitos Estados, mas mantém um trato preferencial com o Estado que exerce operações militares contra civis.

Mais que retórica, Botenga aponta mecanismos concretos: através do acordo de associação UE-Israel, a Europa concede a Tel Aviv um status privilegiado que inclui cooperação econômica e científica. Ao mesmo tempo, as exportações de armamentos continuam, apesar de princípios e resoluções que deveriam restringi-las quando há indícios de violações do direito internacional humanitário. Resultado: “A Europa viola as próprias regras para não desagradar um aliado que bombardeia hospitais e civis”, afirma.

Quando Israel atacou instalações iranianas — incluindo, segundo relatos, a central de Natanz — Botenga denunciou a hipocrisia ocidental: “Quando a Rússia atacou a Ucrânia nós condenamos; agora, quando um Estado atinge instalações no Irã, a presidente da Comissão Europeia não condena”. A observação não é mero maximalismo: é um interrogatório sobre coerência estratégica e sobre a credibilidade dos alicerces da diplomacia europeia.

Enquanto muitos agentes no Parlamento preferem o léxico da moderação, Botenga opta por expor a tectônica de poder que molda escolhas políticas. Sua estratégia é de longo prazo: transformar debates protocolares em palcos de pressão pública, desvelando as linhas de apoio institucional que mantêm situações de impunidade. Trata-se de um movimento decisivo, na linguagem do xadrez político, destinado a forçar uma reavaliação das alianças e das prioridades humanitárias.

Como analista que acompanha os eixos de influência e as fricções diplomáticas, observo que a intervenção de Botenga representa mais do que um grito moral: é uma tentativa de redesenhar, por meio do direito e da opinião pública, as fronteiras invisíveis da responsabilidade europeia. Se a União Europeia quiser manter credibilidade global, terá de enfrentar escolhas difíceis — escolhas que irão testar a solidez de seus princípios e a coerência de sua estratégia externa.