Marjane Satrapi em Roma (2022): a voz que desenha a resistência iraniana
Marjane Satrapi em Roma (2022): sua arte e voz a serviço do movimento 'Donna, Vita, Libertà' e das mudanças sociais no Irã.
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Marjane Satrapi em Roma (2022): a voz que desenha a resistência iraniana
Em sua visita a Roma, durante a Festa do Cinema de 2022, Marjane Satrapi reafirmou o papel público e artístico que lhe conferem décadas de vivência entre o exílio e a crítica explícita ao regime iraniano. Autora da célebre graphic novel Persepolis, Satrapi tem sido, sem hesitação, defensora do movimento "Donna, Vita, Libertà", termo que ela mesma qualificou como uma verdadeira "revolução". Sua fala, medida e firme, descreve um movimento que não é apenas feminino, mas a expressão coletiva de um povo que reclama igualdade e democracia.
Exilada há anos na França, Satrapi conjuga a voz do artista com a do ativista. Como nas suas obras, as frases são enxutas, imagéticas, e carregadas de referências históricas: o advento da República Islâmica em 1979, que redesenhou a geografia social do Irã e forçou sua família ao exílio, é o alicerce das memórias que ela traduz em traço e palavra. Na entrevista concedida à agência AGI e outros meios, Satrapi sublinhou um ponto central — o inimigo não é apenas o aparato do Estado, mas a "cultura patriarcal" que atravessa instituições e mentalidades.
O relato histórico de Satrapi serve como cartografia para entender as mudanças sociais: na primeira grande manifestação contra o véu, em 8 de março de 1980, as mulheres ocuparam as ruas praticamente sem o apoio masculino e sem o engajamento das forças de esquerda, que então viam a questão como separada da luta de classes. Hoje, diz ela, o quadro é distinto. A taxa de alfabetização, que era próxima de 40% à época da Revolução, superou os 80%; nas universidades, as mulheres correspondem hoje a cerca de 60% dos estudantes. Esses dados são os vértices de um movimento tectônico que altera o equilíbrio de poder.
Satrapi chamou atenção especial para a chamada geração 80 — os nascidos em 1380 do calendário persa (2001 no calendário gregoriano) —, jovens moldados pela internet e por uma abertura informacional global. Essa geração, explicou, vive sem os preconceitos que sustentavam o silêncio e não tem disposição para negociar com o regime. Nas semanas intensas de protestos que seguiram o episódio que catalisou o movimento, imagens de meninas arrancando o véu nas ruas e de jovens rasgando fotos de líderes como Ruhollah Khomeini e desafiando o então Guia Supremo Ali Khamenei se multiplicaram, mesmo sob tentativas de bloqueio da rede.
Para Satrapi, a sintonia entre os sexos nas manifestações adquiriu um significado estratégico: "Os homens, pela primeira vez, estão ao lado das mulheres na luta feminista; não é uma luta entre os sexos, mas de um povo inteiro pela paridade de direitos e pela democracia", disse ela. A cena que descreve — em que nas praças os jovens entoam "Donna, vita, libertà" e as mulheres respondem com chamadas por pão e pátria — revela, nas palavras da autora, uma "luta da luz contra as trevas".
Essa batalha contra o uso forçado do véu e por liberdade individual e coletiva tem raízes na própria biografia artística de Satrapi. A pequena Marjane, alter ego em preto e branco de Persepolis, nasceu nas páginas há mais de duas décadas como figura de insubmissão. Hoje, essa iconografia reverbera nas ruas do Irã contemporâneo: o símbolo de uma revolta cultural que se articula em milhares de gestos privados e públicos.
Como analista e observador das dinâmicas internacionais, observo que o discurso de Satrapi em Roma não é apenas uma declaração estética, mas um movimento decisivo no tabuleiro da diplomacia cultural. É a confirmação de que as transformações internas do Irã — impulsionadas por uma geração conectada e por avanços sociais concretos — podem, a médio prazo, reconfigurar os eixos de influência regionais. A importância de vozes como a de Marjane Satrapi reside em traduzir as micro-rebeliões cotidianas em narrativas internacionais que alteram percepções e, potencialmente, políticas.