Massacre em vigília no Norte de Kivu: ADF disfarçados de civis matam mais de 60 fiéis

Militantes da ADF disfarçados atacam vigília em Lubero, Norte de Kivu; mais de 60 mortos em ataque ligado ao Estado Islâmico.

Massacre em vigília no Norte de Kivu: ADF disfarçados de civis matam mais de 60 fiéis

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Massacre em vigília no Norte de Kivu: ADF disfarçados de civis matam mais de 60 fiéis

Por Marco Severini — Em um movimento brutal que revela um padrão tático calculado, militantes das Allied Democratic Forces (ADF), ligados ao Estado Islâmico, atacaram uma vigília fúnebre no território de Lubero, província de Nord Kivu, na República Democrática do Congo. Fontes locais e testemunhas relatam que mais de 60 pessoas foram assassinadas enquanto participavam de orações; o número de vítimas ainda pode aumentar em razão das dificuldades de acesso e identificação dos corpos.

Segundo relatos, os assaltantes se apresentaram travestidos de civis — uma tática deliberada para se misturar entre os enlutados e reduzir suspeitas — e, armados com machetes e armas de fogo, iniciaram um massacre sistemático. Vestígios de mutilações em alguns cadáveres confirmam a brutalidade característica de ataques anteriores atribuídos às ADF.

Este episódio insere-se em uma sequência preocupante de ataques direcionados a reuniões comunitárias e locais de culto. Analistas de segurança descrevem essa prática como parte de uma estratégia para maximizar o impacto psicológico: ao transformar ritos civis e religiosos em cenas de terror, os militantes buscam desarticular os alicerces sociais e ampliar a sensação de desproteção das populações rurais.

As ADF nasceram como um grupo rebelde de origem ugandense e, ao se enraizarem no leste congolês, foram integrando-se àquilo que o Estado Islâmico denomina «Província da África Central». Nos últimos anos, a organização intensificou ataques contra civis, com ênfase em comunidades cristãs, alimentando uma crise humanitária com centenas de mortos e deslocados.

Operações conjuntas entre as forças armadas congolesas e unidades ugandesas têm produzido ganhos operacionais pontuais, mas não conseguiram estabilizar de forma sustentável a região. O massacre em Lubero ecoa episódios anteriores: em julho de 2025 milicianos ligados ao ISIS invadiram uma igreja em Komanda, matando 40 fiéis; em janeiro de 2026, um ataque em Apakolu deixou pelo menos 25 mortos, alguns carbonizados dentro de suas casas. A repetição do modus operandi sinaliza uma persistente capacidade de mobilização e infiltração.

Do ponto de vista geopolítico, estamos diante de uma tectônica de poder que combina insurgência local, cruzamento transfronteiriço e ideologia transnacional. A infiltração de combatentes em eventos civis denota um cálculo estratégico: transformar espaços comunitários em alvos simbólicos e, assim, redesenhar fronteiras invisíveis de medo e controle territorial.

As consequências imediatas são humanas — perda de vidas, trauma coletivo, deslocamento — e estratégicas: erosão da legitimidade do Estado, dificuldade de restabelecer ordem e janela de oportunidade para atores não estatais recriarem pólos de coesão. A resposta requer, portanto, não apenas operações de segurança mais eficazes, mas uma arquitetura de proteção civil e inteligência comunitária que recupere a confiança entre população e autoridades.

Enquanto as investigações prosseguem e equipes de socorro tentam alcançar as áreas afetadas, permanece clara a necessidade de uma coordenação internacional e regional mais robusta. No tabuleiro de xadrez que é o leste congolês, cada movimento — militar, diplomático ou humanitário — deve ser calibrado para conter a expansão da violência e evitar que os alicerces frágeis da estabilidade desmoronem por completo.