Padre: retrato inédito de Papa Francisco revela humanidade e urgência pastoral
Livro 'Padre' de Salvatore Cernuzio revela o lado humano e as urgências pastorais de Papa Francisco, entre diplomacia e emoção.
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Padre: retrato inédito de Papa Francisco revela humanidade e urgência pastoral
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, discretamente, um novo eixo de compreensão sobre o Pontificado, sai hoje, 7 de abril, pela Piemme, o livro Padre, assinado por Salvatore Cernuzio. O trabalho apresenta um retrato inédito de Papa Francisco, confirmando a singularidade de um Pontífice cuja ação pública provoca admiração popular e desconforto nos círculos mais tradicionalistas. A obra, que mistura memória pessoal e relato jornalístico, expõe camadas de humanidade e convicções que ajudam a entender decisões que têm impacto na tectônica de poder contemporânea.
Cernuzio, jornalista dos media vaticanos, narra uma amizade franca e continuada com Bergoglio: o contato inicial nasce de uma carta entregue a bordo de um voo papal em 2021; poucos dias depois veio a ligação inesperada — “Buonasera, sono Papa Francesco” — e daí se estruturou um vínculo feito de encontros, telefonemas e confidências. Relatos íntimos, como os gelatos divididos na Casa Santa Marta — “na taça, assim comemos mais” — e pequenos presentes para a família do autor, humanizam um protagonista que, por vezes, age como um pastor sem os filtros protocolares habituais.
No tecido narrativo, vêm à tona reflexões sobre lideranças mundiais — menções a Sergio Mattarella como “um homem iluminado”, referências a Giorgia Meloni e a indicações acerca do que seria seu sucessor, o cardeal Robert Francis Prevost, a quem chamou de “um santo”. São notas que revelam não apenas preferências, mas cálculos morais e estratégicos com repercussões institucionais.
O livro não evita o sofrimento que guia parte do magistério de Bergoglio. Cernuzio registra a dor do Papa diante do que chamou repetidas vezes de uma “Terceira Guerra Mundial a pedaços”: da Síria ao Iêmen, do drama dos Rohingya à guerra na Ucrânia. Em particular, o desejo de uma viagem ‘conjunta’ a Kiev e a Moscou, a busca de diálogo com Putin e o desencanto frente à resposta russa — reduzida por interlocuções que sugeriam meros contatos entre hierarcas religiosos — são narrados com a franqueza de quem acompanhou o esforço diplomático nos bastidores.
Outro ponto sensível é a angústia sobre Gaza: Bergoglio vivia “com angústia” a situação da Faixa e cogitou, segundo Cernuzio, deslocar-se até lá, inclusive para passar um Natal na paróquia da Sagrada Família, com o padre Gabriel Romanelli, a quem ligava toda noite. A lista de desejos de viagens do Pontífice inclui ainda Líbano, China — esperança alimentada desde a viagem à Mongólia — e Cabo Verde: um mapa de presença pastoral que busca manter vias de influência e símbolos de proximidade em espaços cruciais.
Como analista, vejo este livro como um pequeno tratado de geopolítica moral: as escolhas de um líder religioso que opera como um rei no tabuleiro, movendo-se entre empatia e cálculo, erguendo alicerces frágeis da diplomacia onde o cimento é a compaixão. Padre é, nas suas páginas, um reconhecimento afetivo e estratégico de um homem cuja «fúria de Deus», nas palavras do autor, se traduz em gestos e propostas que tentam conter um mundo em fratura.
O livro, portanto, não é apenas biografia íntima; é documento de um momento em que as decisões simbólicas de um Pontífice repercutem em corredores de poder e em campos de conflito. Para quem estuda as artes da diplomacia e da influência, as memórias de Cernuzio são peças valiosas para compreender o movimento decisivo no tabuleiro do Vaticano contemporâneo.