Papa Leone XIV em Mônaco: “As guerras nascem da idolatria do poder e do dinheiro”
Papa Leone XIV em Mônaco: guerra é fruto da idolatria do poder e do dinheiro; apelo à misericórdia, ecologia integral e uso justo da riqueza.
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Papa Leone XIV em Mônaco: “As guerras nascem da idolatria do poder e do dinheiro”
Em uma visita histórica ao Principado de Mônaco, o Papa Leone XIV lançou um apelo firme contra a lógica que conduz à violência, afirmando que as guerras são fruto da idolatria do poder e do dinheiro. Num discurso carregado de seriedade moral e visão estratégica, o Pontífice descreveu a paz não como mera ausência de conflito, mas como construção ética enraizada na misericórdia e no reconhecimento do outro como irmão.
O breve mas denso roteiro do Papa — cerca de nove horas no Principado, o segundo menor Estado do mundo — culminou com a celebração eucarística no estádio Louis II, onde presidiu a missa que encerrou a sua estada. Ali, em tom sóbrio, advertiu sobre o risco de acostumar-se ao "fragor das armas" e às imagens da guerra, lembrando que toda vida arrancada é uma ferida no corpo de Cristo.
Na homilia, Leone XIV desmontou os calculismos que legitimam a matança: "Quantos cálculos se fazem no mundo para matar inocentes; quantas pseudo-razões se alegam para eliminá-los!" Observou que tais decisões nascem do medo e do apego ao poder, e que é precisamente a misericórdia que pode salvar o mundo ao repudiar a cultura do descarte. A idolatria, advertiu, corrompe e compra o coração, deixando o próximo na miséria e na tristeza.
Era a primeira vez, na era contemporânea, que um Pontífice visitava Mônaco — país símbolo de riqueza e luxo, e conhecido como paraíso fiscal — e a dimensão simbólica da viagem foi explorada pelo Papa. Recebido de helicóptero em uma manhã de sol, foi saudado por multidões ao longo do percurso, entre os boxes do Grande Prêmio e o brilho do mar repleto de iates. O príncipe Alberto II e a princesa Charlene acompanharam todos os atos, e a família real assistiu à bênção da varanda do Palácio, onde as crianças acenavam com bandeirinhas amarelo-e-brancas.
Leone XIV sublinhou ainda o papel singular dos católicos em Mônaco — onde a fé católica é religião de Estado — convocando-os a ser "presença que não esmaga, mas eleva, que não separa, mas conecta". A chamada é para uma caridade ativa: transformar riquezas em serviço do direito e da justiça, especialmente num momento histórico marcado pela ostentação de força e pela lógica da prevaricação que prejudica a paz.
No tom analítico que exige a política internacional, o Papa evocou a ecologia integral — referência explícita ao magistério precedente — como paradigma que une cuidado da criação e proteção da vida frágil. Em linguagem que lembra um movimento de xadrez bem calculado, pediu aos governantes e cidadãos que não cedam aos «alicerces frágeis da diplomacia» fundados no ganho e na exaltação do poder, mas que reconstruam a convivência sobre bases sólidas de justiça e compaixão.
Do ponto de vista geopolítico, a visita reafirma a vocação do Papado como ator moral nas questões contemporâneas: não um mero comentador das crises, mas um agente que procura redesenhar, com paciência estrutural, as linhas de influência que moldam a estabilidade global. Em Mônaco, onde a ostentação económica contrasta com a pequena dimensão territorial, o Papa lançou um convite claro: converter a riqueza em instrumento de fraternidade e resistir à idolatria que transforma o poder em fim em si mesmo.