De Pequim a Havana: o avanço do mundo multipolar e a armadilha do Atlantismo europeu
De Pequim a Havana: como o mundo multipolar avança enquanto a Europa permanece prisioneira do Atlantismo e de velhos paradigmas.
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De Pequim a Havana: o avanço do mundo multipolar e a armadilha do Atlantismo europeu
Por Marco Severini
11 de maio de 2026
O encontro marcado para 14 e 15 de maio entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim constitui um dos movimentos mais delicados no tabuleiro geopolítico dos últimos anos. Por trás das fórmulas diplomáticas e das declarações públicas vê‑se, com clareza estratégica, algo que ultrapassa o habitual roteiro bilateral: a tentativa norte‑americana de redesenhar relações de força num momento de evidente fadiga económica e estrutural dos Estados Unidos.
Washington chega a este rendez‑vous com vários problemas em aberto: a crise no Médio Oriente, a crescente dificuldade em conter o Irã, um abrandamento industrial interno e, sobretudo, uma exposição financeira cuja magnitude obriga o establishment americano a procurar novos equilíbrios. Nesse contexto, a China deixa de ser simplesmente um rival sistémico a conter para tornar‑se um parceiro potencialmente indispensável para evitar uma desestabilização económica ocidental de amplo espectro.
Xi Jinping tem plena consciência desta janela de oportunidade. O verdadeiro significado político do encontro em Pequim não reside apenas na negociação de saldos comerciais, mas na procura de um reconhecimento tácito da centralidade chinesa na governança mundial—a passagem lenta, mas estrutural, de um sistema unipolar dominado por Washington para um arranjo autêntico e multipolar.
Neste xadrez de grande escala, a posição da Rússia merece atenção cuidadosa. Vladimir Putin percebe o risco de uma possível convergência sino‑americana, sobretudo nos sectores decisivos do século XXI: energia, inteligência artificial, logística e finanças internacionais. Moscou teme que Washington tente uma operação histórica de separação entre Beijing e Moscou, uma releitura contemporânea da estratégia triangular que marcou a diplomacia de Kissinger na Guerra Fria. Por isso, o Kremlin, com prudência estratégica, tem reaberto canais com a Europa, na tentativa de reduzir a dependência económica exclusiva de Pequim.
O objetivo russo é claro: restabelecer fluxos comerciais — gás, petróleo, fertilizantes e outras matérias‑primas estratégicas — num quadro que privilegie pagamentos em euro, moeda que Moscou percebe hoje como menos sujeita a instrumentalizações políticas do que o dólar. Trata‑se de um movimento para reconstruir alicerces económicos diversificados e mitigar riscos geopolíticos.
Enquanto isto tudo se desenrola, o velho continente dá sinais de inércia. A actual classe dirigente europeia parece, em grande medida, incapaz de apreender a profundidade do momento: Bruxelas continua a pensar dentro de moldes morfologicamente superados, refugiando‑se num Atlantismo automático que pouco ou nada responde ao redesenho dos equilíbrios globais. A obsessão pela austeridade do Pacto de Estabilidade, a rigidez monetária e a subordinação a agendas externas fragilizam a capacidade estratégica da União Europeia para navegar num mundo de múltiplos centros de poder.
Da Pequim contemporânea às margens históricas de Havana, nota‑se um movimento de recomposição dos eixos de influência. Não é apenas um efeito de rotação diplomática, mas sim um redesenho silencioso das fronteiras de poder: o avanço do mundo multipolar sinaliza que actores regionais e globais procuram alternativas ao modelo atlântico que predominou nas últimas décadas.
O desafio para a Europa é estratégico e existencial: reencontrar autonomia de decisão, repensar instrumentos económicos e de segurança, e reconstruir uma diplomacia capaz de agir como ponte e não como repetidora de ordens externas. Em termos de Realpolitik, cada movimento conta — e quem dominar a arte de antecipar as jogadas poderá definir, nas próximas partidas, os contornos de um sistema internacional menos previsível e mais plural.