A errada e perene autoimagem do americano médio: reflexão estratégica de um observador europeu
Análise diplomática sobre a perene autoimagem americana, imperialismo e o impacto geopolítico do apoio a Israel na tensão com o Irã.
RESUMO ✦
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A errada e perene autoimagem do americano médio: reflexão estratégica de um observador europeu
In God We Trust
«A liberdade acima de tudo e por cima de tudo» — Benedetto Croce
Escrevo como um observador europeu, um ítalo-brasileiro que acompanha a tectônica de poder do outro lado do Atlântico. Falo de uma percepção que persiste como uma torre inabalável: a visão que o americano médio tem de si mesmo. Não é uma opinião viral; é uma leitura de tabuleiro, fruto dos muitos anos de contato com as sementes e as raízes do projeto norte-americano.
Estudei na América do Norte e ganhei, por um episódio de fúria juvenil, o apelido de "hot blooded Italian" depois de ter respondido a uma professora que descreveu meu país como "terra de pastores". Não vim ao mundo para alimentar estereótipos. Sou advogado, neto de engenheiros — sei avaliar estruturas. Essa breve lembrança pessoal serve para lembrar que o confronto com a autoimagem americana não é apenas acadêmico; é vivido.
Nos últimos dias observei, com a mesma atenção de um jogador que aguarda o movimento adversário, os comentaristas e os atores políticos nos Estados Unidos. De um lado, as assertivas do Presidente, de Marco Rubio, de Pete Hegseth; de outro, as reticências e omissões de figuras como Tulsi Gabbard. Há uma disputa de narrativas: alguns acusam Israel de ter arrastado os Estados Unidos para um confronto com o Irã; outros apontam para falhas de inteligência e escolhas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Há também acusações sobre o papel do Mossad e sobre a instrumentalização de informações.
O que surpreende — e é o ponto central desta reflexão — é a ausência quase total de autocritica. No jogo de sombras entre causas e efeitos, raramente se reconhece que a política externa americana possui padrões históricos constantes. O imperialismo não é um acidente recente: está inscrito numa narrativa republicana e expansionista que, desde o período do Destino manifesto, legitimou deslocamentos de poder e violência.
Não pretendo moralizar com slogans; trato de fundamentos. A história do país inclui deslocamentos traumáticos, como o genocídio dos povos nativos, e práticas que, vistas de fora, compõem um mapa onde o supremacismo e o fanatismo religioso tiveram papel ativo. A frase "In God We Trust" decora o imaginário público, e a presença religiosa na vida política americana é um alicerce que moldou escolhas estratégicas.
Quando se busca explicar por que os Estados Unidos reagem de determinadas maneiras diante de crises externas, é preciso olhar para esse corpo de crenças e narrativas. Não é apenas a influência de um líder ou de um partido. É uma arquitetura conceitual de poder que vê a expansão e a intervenção como complementos de sua identidade.
Há, ademais, uma propensão cultural à violência que se manifesta em episódios que para nós europeus parecem incompreensíveis — massacres em escolas, agressões sistemáticas — e que não podem ser dissociados da política externa. A dissonância entre a autoimagem moralizadora e as práticas externas cria fissuras que se manifestam em crises de legitimidade.
Se há um movimento estratégico agora, ele não é apenas militar ou diplomático: é um reposicionamento psicológico. Chamá-lo de "erro" seria simplista. Trata-se, antes, de reconhecer que o tabuleiro mudou: aliados e adversários reavaliam riscos, a geografia do poder se redesenha e as decisões são tomadas à luz de interesses que transcendem episódios isolados.
Como diplomata da informação, proponho uma observação serena: para entender a ação americana é preciso estudar sua memória fundacional, sua imagética e os mecanismos que justificam intervenção. Só assim é possível antever movimentos futuros e construir respostas que não cedam ao calor do instante, mas que atuem como peças bem posicionadas numa partida complexa.
Em suma, a percepção que o americano médio tem de si mesmo é resistente porque é parte de uma narrativa profunda. Reconhecer essa estrutura não é condenar um povo, mas compreender a arquitetura de decisões que moldam o nosso presente internacional — e preparar, com cálculo e prudência, as próximas jogadas.


