Polônia retira a Ordem da Águia Branca de Zelensky após glorificação do UPA; tensão nos laços com Kiev

Polônia revoga a Ordem da Águia Branca a Zelensky após homenagem ao UPA; gesto provoca tensão bilateral e incertezas sobre cooperação com Kiev.

Polônia retira a Ordem da Águia Branca de Zelensky após glorificação do UPA; tensão nos laços com Kiev

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Polônia retira a Ordem da Águia Branca de Zelensky após glorificação do UPA; tensão nos laços com Kiev

Por Marco Severini — 22 de junho de 2026

Em um movimento que redesenha, ainda que simbolicamente, uma das mais delicadas frentes diplomáticas na Europa, o presidente do Instituto Polonês de Memória Nacional, Karol Nawrocki, anunciou a revogação da condecoração Ordem da Águia Branca atribuída ao presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. A decisão responde à escolha de Kiev de homenagear a memória do Exército Insurreccional Ucraniano (UPA), organização dos anos 1940-50 considerada, na Polônia, responsável por massacres e por práticas de natureza nazista.

A medida de Varsóvia foi justificada pela percepção de que a reabilitação simbólica do UPA implica, na prática, a persistência de correntes extremistas dentro das forças ucranianas — um diagnóstico que, do ponto de vista polonês, fragiliza os alicerces da cooperação bilateral e ameaça a confiança construída desde o início do conflito com a Rússia.

O presidente Zelensky devolveu imediatamente a condecoração e emitiu um comunicado crítico a Varsóvia, recordando o papel histórico e o vínculo com o povo polonês. Concomitantemente, reafirmou a disponibilidade de Kiev para um diálogo histórico organizado com a Polônia, com o objetivo de evitar interpretações divergentes sobre capítulos dolorosos do passado comum, e para honrar todas as vítimas inocentes do século XX.

Do ponto de vista estratégico, esta nova crise de memória funciona como um movimento decisivo no tabuleiro de geopolítica europeia. A Polônia, um dos maiores fornecedores de apoio militar e logístico à Ucrânia e acolhedora de centenas de milhares de cidadãos ucranianos, assume agora uma postura cuja potência simbólica pode repercutir no processo de integração europeia de Kiev, na cooperação operacional e na coesão política entre aliados.

Karol Nawrocki, figura alinhada ao partido Direito e Justiça, declarou a decisão "ofensiva e incompreensível" e aventou potenciais repercussões sobre o caminho europeu da Ucrânia caso persistam homenagens ao UPA. Em resposta, Zelensky frisou o valor da aliança com a Polônia, mas também lançou uma reserva crítica sobre a seletividade da memória histórica em algumas capitais europeias.

Enquanto o acontecimento se desenrola, o mais relevante para observadores de estratégia é a tectônica de poder regional: a disputa memória vs. realpolitik expõe alicerces frágeis da diplomacia entre vizinhos que dependeram mutuamente de apoio material e político. A crise evidencia como a arquitetura simbólica do passado pode traduzir-se em consequências práticas no presente — uma lição antiga de cartografia política.

Resta a abertura para um diálogo acadêmico e institucional entre historiadores, para que a interpretação dos episódios do século XX não seja apenas um instrumento de pressão política, mas um campo de reconstrução conjunta da verdade histórica. Até que isso se concretize, porém, a retirada da Ordem da Águia Branca é um claro sinal de que os movimentos simbólicos continuam a moldar, com força, as linhas de disputa no tabuleiro europeu.