Por que Ilaria Salis manteve a imunidade: o veredito do Parlamento Europeu sobre a Hungria

Parlamento Europeu manteve a imunidade de Ilaria Salis por 'fumus persecutionis', citando risco de motivações políticas no processo húngaro.

Por que Ilaria Salis manteve a imunidade: o veredito do Parlamento Europeu sobre a Hungria

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Por que Ilaria Salis manteve a imunidade: o veredito do Parlamento Europeu sobre a Hungria

Por decisão do Parlamento Europeu, a deputada do grupo AVS Ilaria Salis manteve sua imunidade parlamentar, com o argumento jurídico de fumus persecutionis — isto é, indícios de que o processo poderia ter motivações políticas. A decisão, tomada em 7 de outubro de 2025 e divulgada posteriormente, preservou a independência institucional do Parlamento diante de uma solicitação de revogação apresentada por autoridades húngaras.

A apreciação de Strasbourg ecoa um precedente histórico italiano: a invocação de fumus persecutionis remeteu, em 1993, à opção da Câmara dos Deputados de negar autorizações a processar Bettino Craxi. Assim como naquele momento, o Parlamento Europeu assumiu uma postura de salvaguarda não contra o indivíduo, mas em defesa do alicerce de independência do seu mandato e da instituição.

O documento parlamentar, consultado pela imprensa, registra que a Mesa entendeu existirem "elementos concretos" que permitem presumir que o objetivo do procedimento judicial seja, de fato, prejudicar a atividade política de Ilaria Salis enquanto deputada. O texto ressalta que, embora os fatos imputados não se refiram diretamente a opiniões ou votos da parlamentar no exercício de suas funções — argumento central de quem pedia a perda da imunidade —, a proteção não é um privilégio pessoal, mas uma garantia coletiva da liberdade de ação do Parlamento Europeu.

O processo húngaro tem como pano de fundo episódios ocorridos em fevereiro de 2023, quando Salis se deslocou a Budapeste. Segundo a solicitação de revogação enviada pelo Tribunal Regional de Budapeste-Capital, a eurodeputada participou, nos dias 10 e 11 de fevereiro de 2023, de ações coordenadas consideradas como ataques contra ativistas de extrema-direita reunidos para a chamada "Dia da Honra". O Parlamento reconhece a existência de relatos sobre confrontos e episódios de violência envolvendo os celebrantes da data, mas conclui que, frente ao contexto político e às circunstâncias, subsistem dúvidas sobre a finalidade perseguida pelo processo.

Em termos jurídicos, o Parlamento recorda a jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia que confere à Assembleia um "amplo poder discricionário" ao decidir sobre pedidos de revogação de imunidade, dada a natureza intrinsecamente política dessa deliberação. Assim, a decisão de Strasbourg — tomada por margem mínima de votos — reafirma a soberania da Casa na ponderação entre cooperação judicial e proteção do mandato parlamentar.

Do ponto de vista estratégico e diplomático, a escolha do Parlamento é um movimento cuidadoso no tabuleiro das relações entre Bruxelas e Budapeste. Conservando a imunidade de Ilaria Salis, os eurodeputados evitaram um precedente que poderia enfraquecer a proteção institucional frente a potenciais instrumentalizações judiciais com fins políticos. Ao mesmo tempo, a decisão expõe as tensões contínuas sobre o estado de direito e a correlação de forças no seio da União Europeia — uma verdadeira tectônica de poder que redesenha fronteiras invisíveis entre soberania nacional e salvaguarda institucional europeia.

Para observadores de longo prazo, a questão ultrapassa o caso individual: trata-se de preservar alicerces fragilizados da diplomacia parlamentar e de assegurar que a Justiça não se converta em peça de um xadrez político onde os lances decisivos correm o risco de minar a independência dos mandatos. O Parlamento, com voz grave e medida, optou por proteger esse princípio, ao menos até que novos elementos processuais clarifiquem de maneira inequívoca a natureza das acusações.

Em suma, a manutenção da imunidade parlamentar de Ilaria Salis é um movimento estratégico do Parlamento Europeu: um gesto de defesa institucional que reverbera além do caso, sinalizando a atenção contínua de Bruxelas à preservação da autonomia política dos seus membros perante eventuais instrumentalizações judiciais por Estados-membros.