Por que a Pirâmide de Quéops resiste aos terremotos: estudo revela segredo estrutural

Estudo revela como a Pirâmide de Quéops resiste a terremotos: frequências internas, amplificação e proteção oferecida pelas câmaras superiores.

Por que a Pirâmide de Quéops resiste aos terremotos: estudo revela segredo estrutural

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Por que a Pirâmide de Quéops resiste aos terremotos: estudo revela segredo estrutural

Por Marco Severini — Em uma leitura que combina engenharia antiga e consciência geoestratégica do patrimônio, um estudo do Instituto Nacional de Pesquisa de Astronomia e Geofísica (NRIAG), liderado por Asem Salama, lança luz sobre os mecanismos que permitiram à Pirâmide de Quéops suportar séculos de eventos sísmicos sem danos catastróficos. A investigação, publicada na revista Scientific Reports, mapeou as vibrações ambiente em 37 pontos ao redor e no interior da estrutura, incluindo suas câmaras internas, blocos de construção e o terreno circundante.

Erguida entre 4.600 e 4.450 anos atrás no complexo de Gizé, a pirâmide já foi submetida a terremotos de considerável magnitude, como o de 1847 (M 6.8) e o de 1992 (M 5.8). Curiosamente, nenhum desses eventos provocou danos significativos em seu interior ou fachada. Os dados coletados mostram que 76% das vibrações registradas dentro da pirâmide estão concentradas numa faixa de frequência entre 2,0 e 2,6 Hertz, indicando uma distribuição uniforme das tensões mecânicas ao longo da estrutura.

Em contraste, o terreno ao redor evidencia vibrações dominantes em torno de 0,6 Hertz. Os autores propõem que essa discrepância de frequências reduz as interações ressonantes entre edificação e subsolo, limitando a transferência e amplificação das ondas sísmicas — um efeito que, do ponto de vista da estabilidade, funciona como um amortecedor natural.

Os pesquisadores também mensuraram o fator de amplificação das vibrações conforme se sobe na estrutura. A partir da rocha basal, a amplificação cresce com a altura, atingindo o pico na Câmara do Rei, onde as vibrações podem ser até quatro vezes maiores que no nível da rocha. Acima dessa câmara, nas chamadas Câmaras de Alívio (ou Camere di Sfogo), o fator cai para cerca de 3,0. Tal redução sugere um efeito de proteção: as câmaras superiores funcionariam como uma arquitetura interna que desacopla e distribui tensões, diminuindo a probabilidade de colapso da célula funerária principal.

Além disso, a pirâmide assenta sobre um suporte de calcário duro e apresenta um baricentro baixo, características que contribuem para sua resistência sísmica. No entanto, os cientistas advertem que não é possível afirmar com certeza se essas qualidades resultaram de um projeto intencional com objetivo antisísmico ou se derivam de escolha de materiais e técnicas construtivas com outros fins.

Do ponto de vista estratégico e histórico, a descoberta reforça a noção de que grandes obras antigas que sobrevivem ao teste do tempo não são meros acidentes: são posições sólidas no tabuleiro da história, com alicerces que suportam pressões externas e internas ao longo de milênios. A leitura técnica do NRIAG fornece agora um mapa mais claro das interações entre estrutura e terreno — uma cartografia útil tanto para a conservação do monumento quanto para a compreensão das soluções estruturais que resistem aos movimentos tectônicos.

Em suma, a Pirâmide de Quéops revela-se como um exemplar de arquitetura que combina massa, geometria e acoplamento dinâmico favorável: um movimento decisivo no tabuleiro da engenharia que manteve intacto um dos pilares mais venerados da civilização humana.