Putin convoca oligarcas a doações para reforçar gasto militar; Kerimov e Deripaska doam €1 bi cada
Putin pediu a oligarcas doações para custear defesa; Kerimov e Deripaska teriam doado €1 bi cada. Economia russa sob pressão e orçamento militar sobe 42%.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Putin convoca oligarcas a doações para reforçar gasto militar; Kerimov e Deripaska doam €1 bi cada
Por Marco Severini — Em um movimento que reflete a tectônica de poder vigente no Kremlin, o presidente Vladimir Putin teria solicitado a grandes empresários russos contribuições “espontâneas” para custear a escalada das despesas militares. Em encontro com um grupo seleto de oligarcas, segundo relatos, o presidente reafirmou a determinação de a Rússia prosseguir na guerra até controlar inteiramente o Donbass.
Dois nomes imediatamente citados como doadores são Suleiman Kerimov e Oleg Deripaska, que, conforme fontes, teriam se disposto a aportar cerca de €1 bilhão cada um. A iniciativa expõe, com clareza cartográfica, o redesenho informal das linhas de financiamento entre Pétersburgo e Moscou: quando as receitas estatais minguam, podem emergir, como peças no tabuleiro, recursos privados mobilizados a favor das prioridades estratégicas do Estado.
O pedido do Kremlin ocorre paralelamente à divulgação do plano de paz proposto por Washington e Kiev — um documento em 20 pontos que prevê, entre outros itens, a integração da Ucrânia à União Europeia, a designação de Donetsk como zona econômica especial e eleições a serem realizadas após eventual assinatura de um acordo. Moscou, contudo, mantêm postura intransigente: a cessão formal, segundo o Kremlin, exigiria a entrega dos cerca de 5.000 km² do Donbass ainda sob controle ucraniano e a renúncia ucraniana a qualquer adesão à NATO.
No plano econômico, os sinais são ambíguos. Depois de um período inicial de resiliência — impulsionado pela reconversão industrial orientada ao esforço de guerra — a máquina financeira russa dá indícios de fadiga. O Produto Interno Bruto cresceu 4,3% em 2024, impulsionado pelo setor manufatureiro, e desacelerou para aproximadamente 1% em 2025, com o setor industrial expandindo apenas 1,4% e os preços do petróleo operando abaixo de US$70 por barril.
As sanções dirigidas aos setores energéticos e financeiros corroeram receitas que, por anos, alimentaram o fundo soberano russo. A retirada gradual dessas reservas, combinada à queda nos ingressos oriundos de petróleo e gás, abriu um déficit entre receita e despesa que agora obriga o governo a explorar fontes alternativas de financiamento — incluindo a chamada “caridade patriótica” de magnatas alinhados.
Em resposta à conjuntura, Moscou elevou o orçamento de defesa em 42%, situando-o na ordem de €140 bilhões. Trata‑se de um movimento estrutural que, embora destinado a sustentar operações militares e esforço industrial, exerce pressão adicional sobre uma economia cujos alicerces mostram sinais de erosão.
Interpretando estes fatos no tabuleiro da Realpolitik: a chamada às doações evidencia tanto a persistência da prioridade estratégica sobre a prudência fiscal quanto a dependência crescente do Estado russo em capitais concentrados. É um movimento defensivo e, ao mesmo tempo, propositivo — um lance de xadrez que protege o rei enquanto compromete o equilíbrio das torres econômicas.
Enquanto interlocutores ocidentais trabalham num roteiro diplomático, o Kremlin dita as condições que considera não negociáveis. A dinâmica entre pressões externas, restrições fiscais e solidariedade oligárquica desenha, assim, os contornos de uma nova arquitetura de poder: frágil, porém robusta o suficiente para sustentar uma ofensiva prolongada.