Qassem rejeita acordo Líbano-Israel em Washington: “Humilhante, renúncia à soberania”

Naim Qassem, vice-líder do Hezbollah, qualifica acordo Líbano-Israel em Washington como humilhante e renúncia à soberania; riscos e repercussões geopolíticas.

Qassem rejeita acordo Líbano-Israel em Washington: “Humilhante, renúncia à soberania”

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Qassem rejeita acordo Líbano-Israel em Washington: “Humilhante, renúncia à soberania”

Por Marco Severini - Espresso Italia

Em uma intervenção de tom grave e calculado, o número dois de Hezbollah, Naim Qassem, classificou como “humilhante e vergonhoso” o quadro de entendimento anunciado em Washington entre Líbano, Israel e os Estados Unidos. Para o líder do movimento xiita, a assinatura representa, na prática, uma renúncia inaceitável à soberania nacional.

O documento rubricado na capital norte-americana propõe uma roadmap em 14 pontos destinada a orientar o processo rumo a segurança, estabilidade e eventual normalização das relações. Mesmo assim, segundo Qassem — cuja fala foi retransmitida por al-Jazeera — o acordo é “nulo” e deve ceder à implementação das disposições do que ele referiu como o "memorandum d’intesa" entre atores regionais e internacionais.

Na sua leitura, as autoridades de Beirute teriam, ao assinar o entendimento, legitimado uma forma de ocupação que poderá perdurar “por muitos anos”. A consequência desse gesto, advertiu, seria o risco de anexação gradual de territórios, algo que remeteria ao projeto geopolítico conhecido por alguns analistas como “The Greater Israel”.

Qassem sublinhou que Hezbollah permanece comprometido com a defesa da terra libanesa: “Continuaremos com a resistência no terreno para derrotar a ocupação. Não abandonamos o campo nas circunstâncias mais difíceis e não o abandonaremos”, declarou. Rejeitou, em particular, a lógica de condicionar o retirada israelense ao desarmamento das forças de resistência no Líbano, classificando tal vínculo como “muito perigoso” e ultrapassando “todas as linhas vermelhas”.

O pronunciamento ocorre num momento em que, mesmo após a assinatura em Washington, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu já afirmou que o Estado hebreu não pretende retirar-se por completo do sul do Líbano — posição que agrava a distância entre o texto do acordo e sua aplicabilidade no terreno.

Qassem afirmou ainda que Hezbollah está “pronto a cooperar” em prol da soberania do Líbano, mas condicionou essa cooperação aos objetivos de libertação territorial e expulsão do “ocupante israeliano”. Ademais, prometeu empregar “todos os meios necessários” e mobilizar pressões no plano árabe e internacional para forçar Israel a cumprir a primeira disposição do memorando e proceder ao recuo.

Da perspectiva estratégica, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro: a assinatura em Washington redesenha fronteiras invisíveis de legitimidade, mas não resolve as assimetrias de poder nem os alicerces frágeis da diplomacia regional. Enquanto o documento busca formalizar um roteiro em 14 pontos, a reação de Hezbollah expõe que a tectônica de poder no Levante continuará a ser disputada tanto nas salas de negociações quanto na geografia limítrofe entre Líbano e Israel.

Fontes citadas pelo Il Giornale d’Italia e pela al-Jazeera servem de base para avaliar que o futuro imediato dependerá da capacidade das partes — e dos mediadores — de traduzir termos escritos em garantias tangíveis sobre o terreno. Até lá, a sombra da resistência e das ameaças de contestações permanece como um elemento crucial na equação geopolítica.