Queda de apoio a Putin sinaliza risco político antes das eleições na Rússia
Pesquisa Vtsiom mostra queda de apoio a Putin e risco para Rússia Unida antes das eleições de 20 de setembro.
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Queda de apoio a Putin sinaliza risco político antes das eleições na Rússia
Por Marco Severini — A menos de seis semanas das eleições para renovar a Duma, a Rússia atravessa uma fase de erosão do apoio à liderança do Kremlin. Pesquisa realizada entre o fim de julho e início de agosto pelo Vtsiom indica que 65,9% dos russos aprovam a gestão de Putin, cifra sensivelmente inferior aos cerca de 80% registrados há poucos meses.
O declínio do índice de aprovação popular se estabilizou após uma queda de aproximadamente cinco pontos em julho, reação direta à grave crise de combustíveis provocada pelos ataques ucranianos a refinarias russas. Esse episódio expôs fragilidades logísticas e simbólicas do aparato estatal e gerou um efeito imediato sobre o humor público.
Em relação às intenções de voto, o partido governista Rússia Unida aparece com 32,1%. No entanto, o Kremlin aposta que a baixa participação eleitoral favorecerá a manutenção da maioria constitucional na Duma no pleito marcado para 20 de setembro. A estratégia lembra um movimento defensivo no tabuleiro: reduzir riscos controvertidos e apostar no controle da mobilização.
A queda de popularidade tem raízes anteriores. Desde março, a decisão de restringir redes sociais e reduzir a velocidade de acesso à Internet irritou camadas jovens, empresários e setores das Forças Armadas — grupos demográficos cujo descontentamento é mais difícil de capitalizar politicamente. Levantamentos do Centro Levada sinalizam que dois terços dos entrevistados são a favor da cessação das hostilidades e do início de negociações de paz na guerra na Ucrânia, enquanto apenas um terço defende a continuidade do conflito. Esse dado revela uma tectônica de poder doméstico que fragiliza a narrativa oficial centrada na mobilização belicista.
Em um gesto que traduz a gravidade do momento, Putin optou por liderar a campanha do Rússia Unida pela primeira vez desde 2007, adotando o slogan "Tudo pela vitória". A centralidade do apelo à vitória responde a uma lógica de prioridade: subordinam-se outras agendas públicas ao imperativo de comprovar avanços em sua estratégia bélica — um objetivo que, no terreno ucraniano, permanece distante.
Não é a primeira vez que o Kremlin enfrenta uma erosão tão brusca. O último episódio comparável remonta a 2018, quando a aprovação de uma reforma da previdência, anunciada praticamente em segredo durante a abertura da Copa do Mundo, levou a popularidade de ~80% a 62% em menos de dois meses, com impacto particularmente forte entre eleitores com mais de 50 anos.
No campo opositor, figuras exiladas convocaram o eleitorado a apoiar o partido pacifista Yabloko. A legenda, porém, distanciou-se desses apelos por receio de ser acusada de beneficiar-se de interferência estrangeira e, assim, ser excluída do pleito — mais uma prova do alicerce frágil que sustenta a competição política sob as regras atuais.
Em termos estratégicos, o cenário atual descreve um redimensionamento do jogo político russo: o Kremlin busca consolidar gains institucionais através do controle da mobilização e da narrativa da vitória, enquanto as pressões sociais e as preferências por negociação transformam o tabuleiro em um campo de riscos e oportunidades. A próxima jogada, até 20 de setembro, será decisiva para o equilíbrio interno do poder e para a legitimidade com que o executivo pretende governar o período subsequente.