Radev conquista maioria absoluta na Bulgária e redesenha o tabuleiro político europeu
Rumen Radev alcança maioria absoluta na Bulgária; vitória altera o tabuleiro político e reabre diálogo entre Sofia, Bruxelas e Moscou.
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Radev conquista maioria absoluta na Bulgária e redesenha o tabuleiro político europeu
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha as linhas de influência no leste europeu, o ex-presidente búlgaro Rumen Radev alcançou uma vitória contundente nas eleições parlamentares, obtendo uma maioria absoluta que pode encerrar meio decênio de incertezas políticas em Sofia. Os resultados quase definitivos, divulgados nesta manhã, indicam uma mudança tectônica no tabuleiro político do país.
Com 91,7% das urnas apuradas, a coligação liderada por Radev, batizada de Bulgária Progressista, somou 44,7% dos votos, caminho aberto para a conquista de cerca de 130 das 240 cadeiras do Parlamento. Trata‑se da primeira maioria absoluta para uma única formação desde 1997, quando um partido de centro‑direita pró‑europeu venceu as eleições.
Radev, 62 anos, que deixou a presidência no início deste ano após nove anos no cargo, apresentou sua candidatura prometendo um combate vigoroso à corrupção e articulando um amplo apelo eleitoral que mobilizou eleitores de diferentes espectros. A participação nas urnas foi a mais alta desde 2021, ano em que uma série de protestos anticorrupção derrubou o governo conservador de longa data liderado por Boyko Borissov.
O resultado representa também um severo revés para o partido de Borissov, o GERB, que caiu para 13,4% dos votos, praticamente empatado com a coalizão liberal PP‑DB, com 13,2% segundo a comissão eleitoral. No mesmo escrutínio, retornam ao Parlamento tanto a formação de extrema‑direita Vazrazhdane quanto o partido das minorias turcas MRF, sinalizando um hemiciclo fragmentado, apesar da maioria de Radev.
Nas reações internacionais, o primeiro‑ministro português Antonio Costa felicitou Radev nas redes sociais pela “vitória esmagadora” e manifestou expectativa de colaboração no Conselho Europeu em prol de uma Europa próspera, autónoma e segura. Do outro lado do espectro geopolítico, o Kremlin recebeu com apreço o desejo declarado de Radev de "iniciar um diálogo" com Moscou. O porta‑voz do Kremlin, Dmitri Peskov, assinalou, contudo, que seria prematuro extrapolar a mudança de clima na Europa em relação à Rússia, observando a existência de declarações diversas provenientes de Bruxelas.
Como analista, vejo nesta vitória um movimento decisivo no tabuleiro balcânico: Radev não apenas capitalizou o desgaste das forças tradicionais, mas também montou um corpus político capaz de oferecer governabilidade em meio a um Parlamento onde forças extremas mantêm representação. A eleição sinaliza uma oportunidade para estabilizar alicerces frágeis da diplomacia búlgara — ao mesmo tempo que provoca recalibragens nas relações com Bruxelas e Moscou.
Existem agora desafios concretos no horizonte: transformar a promessa de combate à corrupção em reformas institucionais eficazes; gerir a convivência parlamentar com partidos de posições antagônicas; e conduzir uma política externa que equilibre a busca por diálogo com a Rússia e os compromissos com a União Europeia e a OTAN. Este é um momento de arquitetura política: Radev dispõe de uma maioria que lhe dá margem de manobra, mas o sucesso dependerá de sua capacidade de construir pontes e non só de consolidar poder.
Em termos de estratégia regional, a vitória poderá provocar um redesenho de fronteiras invisíveis de influência, com impactos sobre a estabilidade econômica e sobre as dinâmicas de segurança no flanco sudeste da OTAN. O próximo capítulo será escrito na Assembleia e nas salas de negociação de Bruxelas e Moscou — e, como sempre num bom jogo de xadrez diplomático, os próximos movimentos precisarão ser calculados com precisão.