Roubo de US$290 milhões em criptomoedas: suspeita recai sobre hackers da Coreia do Norte
Suspeita de hackers da Coreia do Norte em roubo de US$290 milhões em criptomoedas de KelpDAO; LayerZero aponta grupo Lazarus como provável autor.
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Roubo de US$290 milhões em criptomoedas: suspeita recai sobre hackers da Coreia do Norte
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha mais um trecho invisível do mapa da segurança digital, foi comunicado no fim de semana o furto equivalente a US$290 milhões em criptomoedas. A vítima identificada publicamente é a plataforma KelpDAO, especializada em DeFi e no chamado restaking — o reinvestimento de ativos digitais para geração de rendimento.
Relatos do setor, com base em investigação preliminar divulgada por veículos como o Coindesk e confirmações dos próprios envolvidos, apontam que o ataque ocorreu em 18 de abril de 2026. Durante a operação criminosa, dois servidores hospedados pela aplicação LayerZero foram comprometidos, o que permitiu aos invasores drenar tokens atrelados à Ethereum, a segunda maior criptomoeda por capitalização.
LayerZero declarou que — segundo as primeiras evidências técnicas — trata-se de um ataque orquestrado por um ator estatal de alta sofisticação. A acusação recai sobre o grupo Lazarus, amplamente associado a operações cibernéticas da Coreia do Norte. Em comunicado, a plataforma sublinhou a dimensão e o método do ataque, que expõe fraquezas na infraestrutura interligada das aplicações de finanças descentralizadas.
Henri Arslanian, cofundador da Nine Blocks Capital Management, advertiu que o episódio vai tornar a entrada de novos investidores na esfera DeFi mais cautelosa: "é claramente obra do grupo Lazarus da Coreia do Norte. Nenhum outro grupo tem a experiência e a capacidade para um golpe similar", afirmou. A observação aponta para uma tectônica de poder digital em que atores estatais utilizam recursos cibernéticos para obter liquidez internacional.
O episódio não é isolado. Em 2024, peritos das Nações Unidas estimaram que a Coreia do Norte teria apropriado mais de US$3 bilhões em ativos digitais desde 2017, recursos que, segundo o relatório, teriam sido empregados para financiar programas sensíveis do regime. O Multilateral Sanctions Monitoring Team (MSMT) calculou ainda que hackers norte-coreanos roubaram ao menos US$1,65 bilhão entre janeiro e setembro de 2025; desse montante, cerca de US$1,4 bilhão foram subtraídos em fevereiro de 2025 da exchange Bybit.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma sequência de movimentos que evidencia dois vetores: a crescente profissionalização de atores patrocinados por Estados na economia digital e a interdependência operacional entre plataformas de DeFi. Em termos de xadrez geopolítico, uma peça de infraestrutura comprometida permite um ataque que captura peças em diferentes setores do tabuleiro financeiro.
As consequências práticas são múltiplas: perda imediata de liquidez para usuários, pressão regulatória sobre provedores de infraestrutura cripto e novo argumento para governos que pleiteiam controles mais rígidos sobre ativos digitais. Para atores internacionais preocupados com estabilidade e conformidade, este episódio reforça a necessidade de construir alicerces mais resilientes na arquitetura da economia cripto.
Enquanto investigações forenses prosseguem e fundos das vítimas tentam rastrear saídas e rotas de lavagem, permanece a lição clara: a coexistência entre inovação financeira e riscos estratégicos exige respostas coletivas, técnicas e diplomáticas. No tabuleiro da segurança digital, cada vulnerabilidade revelada redefine os próximos lances possíveis.