SAF lança operação terrestre nos Kordofan e afirma destruir quatro grupos de combate das RSF

SAF lança grande operação terrestre nos Kordofan; quatro grupos das RSF destruídos e cidades retomadas em avanço estratégico.

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SAF lança operação terrestre nos Kordofan e afirma destruir quatro grupos de combate das RSF

Marco Severini — Em um movimento que redesenha, por ora, a geometria das frentes no Sudão, as Forças Armadas Sudanesas (SAF) anunciaram no sábado uma operação terrestre em larga escala nos estados de Kordofan Norte e Kordofan Sul. A ação marca o retorno das ofensivas terrestres após um período em que o conflito havia se concentrado sobretudo no uso de drones, e representa um movimento decisivo no tabuleiro de poder regional.

Segundo comunicado oficial do porta‑voz militar, as forças leais ao comando central empreenderam operações de avanço e de limpeza nas áreas até então controladas pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), com foco nas localidades de Kazgeil, Shwaya, Al‑Hammadi e Al‑Dubeibat. O anúncio afirma que a ofensiva infligiu “pesadas perdas” às RSF, incluindo a destruição de vários veículos de combate e a fuga de numerosos milicianos.

Fontes militares citadas pelo Sudan Tribune apontam que o novo impulso operacional foi possível com a chegada de reabastecimentos logísticos e de sistemas anti‑drone, destinados a consolidar o controle sobre as áreas retomadas — um claro reconhecimento da importância da superioridade contra‑aérea tática na atual fase do confronto.

Em paralelo, a chamada Joint Force — a coalizão que acompanha as unidades do Exército — divulgou ter anunciado a “libertação” de Kazgeil e Al‑Hammadi após combates intensos contra as RSF. A mesma fonte atribui à operação a captura de 57 veículos de combate em condições operacionais, bem como a destruição de outros 36 meios e de 7 blindados de origem emiratina.

O comunicado sublinha ainda que quatro grupos de combate das RSF, identificados pelos números 111, 13, 145 e 117, teriam sido “completamente destruidos”. A designação numérica desses destacamentos e a ênfase na sua aniquilação miram não apenas degradar capacidades, mas também desarticular redes de comando e controle, minando os alicerces da estrutura miliciana.

Do ponto de vista estratégico, trata‑se de uma tentativa do Comando central de interromper linhas de abastecimento que ligam Al‑Dubeibat a Dilling, objetivo que, se bem sucedido, alteraria a tectônica de poder local e reduziria a mobilidade e o alcance operacional das RSF na região.

Este avanço ocorre em meio a um contexto político interno de centralização do comando pelo marechal al‑Burhan, que recentemente promoveu alterações no alto escalão das SAF. As mudanças concentram decisões estratégicas no Gabinete do Comandante em Chefe, reduzindo o papel de oficiais que haviam ganhado visibilidade pública.

Na arena diplomática, o líder das RSF, Mohamed Hamdan Dagalo (conhecido como Hemeti), busca reconhecimento ao propor a abertura de escritórios da ONU nas áreas por ele controladas, apresentando‑os como uma via para acelerar a entrega de assistência humanitária. Especialistas e fontes regionais, contudo, interpretam essa iniciativa também como um esforço de legitimação internacional do seu governo paralelo.

Como analista, observo que a ofensiva da SAF é simultaneamente um teste logístico e político: testar a resiliência das linhas inimigas e reforçar a narrativa de uma restauração de autoridade estatal. No entanto, o sucesso duradouro depende da capacidade de manter corredores seguros para populações civis e de consolidar ganhos territoriais numa arquitetura mais ampla de estabilidade. O conflito no Kordofan permanece um jogo de várias camadas — militar, política e humanitária — cujo resultado continuará a desenhar, passo a passo, a cartografia do poder no Sudão.