Sahara Ocidental: o tabuleiro geopolítico entre Marrocos, Sahrawis e Argélia

Sahara Ocidental: histórico, disputa entre Marrocos e Sahrawis, papel da Argélia e impacto geopolítico na região e nas exclaves espanholas.

Sahara Ocidental: o tabuleiro geopolítico entre Marrocos, Sahrawis e Argélia

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Sahara Ocidental: o tabuleiro geopolítico entre Marrocos, Sahrawis e Argélia

Por Marco Severini — Em jogo está muito mais que um deserto: o Sahara Ocidental é um tabuleiro onde se movem interesses nacionais, alinhamentos regionais e apostas estratégicas transcontinentais. Com cerca de 260 mil quilômetros quadrados, a região está marcada por uma barreira defensiva marroquina com mais de 2.700 quilômetros que fragmentou territórios e populações, relegando amplas comunidades sahrawis às franjas fronteiriças com a Argélia e a Mauritânia.

Historicamente, o que hoje se chama Sahara Ocidental foi possessão espanhola entre 1884 e 1975. A saída espanhola, formalizada nos Acordos de Madrid de 1975, transferiu o controlo administrativo do território entre Espanha, Marrocos e Mauritânia — uma solução provisória que evitou uma consulta de autodeterminação às tribos nómadas locais. A partir dessa lacuna nasceu a reivindicação marroquina, consolidada internamente pela denominada "Marcha Verde" promovida por Hassan II em 1975, que desencadeou deslocamentos populacionais e uma ocupação gradual do território.

Do lado oposto, o Fronte Polisario, movimento de libertação sahrawi, proclamou a República Árabe Saharaui Democrática e conta com o apoio político e logístico de Argel. Essa bipolaridade — Rabat versus Polisario-Argélia — desenhou uma longa disputa congelada que tem sido objeto de missões de paz da ONU e de sucessivas tentativas de negotiated settlement, sem resolução definitiva.

Nos últimos anos, o dossier voltou a ganhar visibilidade em função de dois vetores: a crise migratória envolvendo as exclaves espanholas de Ceuta e Melilla e a reconfiguração diplomática pós-2020, quando Washington reconheceu a soberania marroquina sobre o Sahara como contrapartida ao restabelecimento de relações entre Marrocos e Israel no âmbito dos Acordos de Abraão. Esses movimentos realinharam peças no tabuleiro: por um lado, conferiram a Rabat munições políticas; por outro, acentuaram as fraturas entre Madrid e Argel.

É folclore estratégico — e também realidade fria — sugerir um projecto expansionista de um "Grande Marrocos" incluindo Ceuta, Melilla e o Sahara. Trata-se, contudo, de uma narrativa que encontra adeptos e detratores: parte das elites marroquinas e de analistas internacionais interpretam o activismo territorial como expressão de ambição regional, enquanto outros apontam a iniciativa como cálculo de segurança e influência no estreito de Gibraltar.

Do ponto de vista pragmático, o muro marroquino (o "berm") e o controlo efetivo de áreas ricas em recursos — pesca e potenciais jazidas de hidrocarbonetos e fosfatos — consolidaram uma realidade de facto difícil de reverter sem uma nova arquitetura de garantias e incentivos internacionais. A Argélia, por seu turno, utiliza a questão sahrawi como instrumento de política externa para conter Rabat e ampliar sua proeminência no Magrebe.

Para o observador de longo prazo, este conflito é uma lição sobre os alicerces frágeis da diplomacia quando confrontados com reivindicações territoriais e interesses externos. A esperança de uma solução passa por um movimento decisivo no tabuleiro diplomático: um acordo que inclua segurança, desenvolvimento e direitos políticos para o povo sahrawi, alinhado a garantias regionais que desagradem a nenhum dos grandes atores envolvidos.

Em suma, o Sahara Ocidental permanece como uma peça deslocada num xadrez em que Estados, alianças transatlânticas e atores regionais disputam influência. A resolução exigirá não apenas boa vontade, mas uma leitura fina da tectônica de poder que hoje organiza o Mediterrâneo ocidental e o Sahel. A estabilidade futura dependerá de acordos que transformem fronteiras invisíveis em compromissos palpáveis de coesão e paz.