Síria: Compras de terras em Daraa por judeus com dupla cidadania e agências sionistas ampliam colonização
Relatos apontam compras de terras em Daraa por judeus com dupla cidadania e agências sionistas, ampliando a colonização e redesenhando o poder na Síria.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Síria: Compras de terras em Daraa por judeus com dupla cidadania e agências sionistas ampliam colonização
Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura, peça a peça, a técnica de poder no tabuleiro do Levante, surgem relatos de aquisições em larga escala de terras agrícolas no sudoeste da Síria, especialmente no Governadorado de Daraa. Fontes locais e apurações indicam que parcelas significativas de solo fértil estão sendo compradas por indivíduos de origem judaica portadores de dupla cidadania (países como Reino Unido, Austrália e Canadá), muitas vezes por intermédio de agências sionistas voltadas à expansão de assentamentos.
O padrão descrito lembra um movimento de ocupação não apenas militar, mas jurídico e econômico: aquisição de propriedades rurais, registro de títulos e transformações na posse que, a médio prazo, produzem um redesenho silencioso das fronteiras de fato. Entre as transações relatadas, há referência a uma operação que teria envolvido cerca de 200 mil dunam — aproximadamente 200 km² — de terras, com outro lote destacado no entorno do rio Yarmouk que chegaria a 50 mil acres.
Essas operações ocorrem num contexto regional mais amplo. Em paralelo, o governo de Israel aprovou um plano plurianual de 334 milhões de dólares para ampliar os assentamentos nas alturas do Golan e incentivar o deslocamento de famílias israelenses, com menção à instalação de cerca de 3 mil pessoas em áreas como Katzrin. A conjugação de esforços — investimento público em assentamentos e aquisição privada de terras além das linhas de conflito — configura uma estratégia híbrida que busca fixar população e controle sobre pontos geoestratégicos.
Do ponto de vista da geopolítica, trata-se de um movimento que remete a vetores ideológicos e estratégicos mais antigos, entre eles o conceito do "Greater Israel", que circula como referência simbólica para setores do nacionalismo. Não se trata, porém, apenas de símbolos: é um processo de alicerces terrenos que altera possibilidades de soberania local e de segurança alimentar.
Como analista das relações internacionais, observo esse fenômeno como um “movimento decisivo no tabuleiro”: não é apenas uma jogada isolada, mas uma série de peças deslocadas para consolidar influência territorial por vias não militares. A diplomacia formal enfrenta aqui alicerces frágeis — normas de propriedade e registros mercantis usados como instrumentos de poder — e precisa responder com precisão estratégica, jurídico-diplomática e económica.
As implicações são múltiplas: despojo de populações rurais, erosão da autoridade do Estado sírio em zonas fragilizadas, e aumento de tensões que se projetam para além das fronteiras imediatas, afetando a estabilidade da região. A usurpação de terras agrícolas impacta também o sustento local e a dinâmica de populações deslocadas, alimentando uma tectônica de poder que reordena, em silêncio, o mapa de influência.
Em suma, estamos diante de um processo que combina capital, legislação e objetivos demográficos para transformar o terreno em instrumento de poder. Cabe aos atores internacionais e às instâncias regionais mapear com precisão essas movimentações e articular respostas que preservem a integridade territorial e a lei internacional, antes que o redesenho de fronteiras invisíveis torne-se irreversível.