Sudão acusa Emirados e Etiópia de envolvimento em ataque com drones ao aeroporto de Khartoum
Sudão acusa Emirados e Etiópia de apoio a RSF no ataque com drones ao aeroporto de Khartoum; governo diz ter provas e promete resposta.
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Sudão acusa Emirados e Etiópia de envolvimento em ataque com drones ao aeroporto de Khartoum
Por Marco Severini - Em uma movimentação que altera o tabuleiro estratégico do nordeste africano, o governo do Sudão acusou formalmente os Emirados Árabes Unidos e a Etiópia de terem papel ativo no bombardeio por drones que atingiu o aeroporto de Khartoum e outros alvos nas últimas horas. O episódio marca uma escalada que ultrapassa a lógica interna do conflito e projeta riscos de regionalização do confronto.
Segundo autoridades sudanesas, um drone de longo alcance lançou quatro mísseis que acertaram a seção oriental do aeroporto da capital. Os ataques aéreos, realizados nos dias recentes pelas Forças de Apoio Rápido (RSF), também visaram bairros residenciais e instalações militares, incluindo a base do Corpo das Transmissões em Khartoum Norte e o centro de treinamento de al-Markhiyat, em Omdurman.
Em coletiva, o ministro das Relações Exteriores Mohieddin Salem e o porta-voz militar Asim Awad Abd al-Wahab afirmaram dispor de "provas conclusivas" de que os veículos aéreos empregados na operação partiram da base de Bahir Dar, em solo etíope, o que — na leitura de Cartas e mapas diplomáticos — faz do conflito um fenômeno transfronteiriço e potencialmente controlado de fora.
"Anunciamos formalmente o envolvimento dos Emirados Árabes Unidos e da Etiópia no bombardeio do aeroporto de Khartoum", declararam os funcionários em nota divulgada pela agência estatal. O governo sudanês reservou-se no documento o direito de responder "no momento e no lugar que julgar oportunos", frase que sinaliza tanto a vontade de preservar margem estratégica quanto o risco de retaliações futuras.
As acusações vêm na sequência de relatórios e imagens de satélite que, nas últimas semanas, apontaram para a existência de um campo de treino das RSF em território etíope, na região de Benishangul-Gumuz, segundo Khartoum financiado pelos Emirados Árabes Unidos. Fontes citavam a proximidade do local com a fronteira sudanesa e uma capacidade estimada em milhares de combatentes.
Além disso, já havia sido relatado que milícias foram autorizadas a transitar por solo etíope durante operações que culminaram na tomada da cidade de Kurmuk, episódio que reforça a narrativa sudanesa de facilitação e cooperação logística entre atores estatais e paramilitares estrangeiros.
Do ponto de vista da geopolítica prática — a tectônica de poder entre Nilo, Corno de África e o corredor do Mar Vermelho —, a implicação de Addis Abeba e Abu Dhabi numa operação desta natureza redesenha linhas de influência e expõe fragilidades nos alicerces da diplomacia regional. A possibilidade de utilização de bases em terceiro país para projeção de força transforma estratégias locais em problemas de ordem internacional, com reflexos no comércio, segurança e nas relações entre blocos.
Em termos de respostas, o cenário plausível inclui pedidos de investigação por organismos multilaterais, apelos por supervisão independente por parte da União Africana e da ONU, e pressões diplomáticas que podem incluir sanções setoriais ou medidas restritivas. Entretanto, sem verificação externa independente, as acusações permanecerão como peças em disputa no jogo de narrativas.
Como analista habituado a ler o tabuleiro com lentes de Estado, observo que este episódio testa não apenas capacidades militares, mas a estabilidade das alianças e a disciplina estratégica de atores que preferem operar em zonas cinzentas. A jogada, se confirmada, não é apenas um ataque: é uma tentativa de deslocar fronteiras de influência por meios assíncronos, minando a arquitetura clássica da soberania.
Enquanto as potências regionais e globais avaliam suas próximas jogadas, o Sudão permanece no epicentro de uma crise cujo desfecho pode reconfigurar trajetórias políticas e securitárias em uma vasta região. A prudência diplomática e a exigência por verificação independente tornam-se as peças centrais para evitar um efeito dominó indesejado.