Sudão à beira do colapso: ONU alerta 36 milhões em pobreza extrema até 2030

UNDP alerta que, se a guerra continuar, 36 milhões de sudaneses podem viver em pobreza extrema até 2030; economia e infraestrutura em colapso.

Sudão à beira do colapso: ONU alerta 36 milhões em pobreza extrema até 2030

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Sudão à beira do colapso: ONU alerta 36 milhões em pobreza extrema até 2030

Por Marco Severini — A mais recente avaliação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP), em parceria com o Institute for Security Studies, desenha um quadro de colapso sistêmico no Sudão. O relatório Beyond Conflict: Mapping a Path Toward Sustainable Growth and Development in Sudan identifica um “ponto de virada crítico”: se a guerra que já se arrasta por quatro anos não for contida, até 2030 cerca de 36 milhões de sudaneses poderão viver em pobreza extrema — um equivalente a aproximadamente 60% da população.

O documento contextualiza a tragédia em termos históricos e econômicos. Entre 1990 e 2011 o Sudão havia reduzido a taxa de pobreza de 38,1% para 15,6%. Esse progresso foi praticamente anulado pela onda de violência. Em 2023 o índice voltou a 45% e, segundo dados governamentais citados no final de 2025, alcançou 71% — números que refletem o impacto devastador do conflito sobre os serviços essenciais e a capacidade produtiva.

Do ponto de vista macroeconômico, o relatório aponta perdas dramáticas: a economia sudanesa perdeu cerca de 6,4 bilhões de dólares de PIB apenas em 2023, com uma contração estimada em 12% naquele ano. O endividamento público explode para níveis insustentáveis, chegando a aproximadamente 148% do PIB, dominado por dívida externa. Em linguagem cartográfica de poder, tratamos de um território econômico cuja malha financeira ruiu sob o peso do conflito.

O custo humano é igualmente sombrio. As estimativas mencionam mais de 150.000 mortos e cerca de 24 milhões de pessoas afetadas pela insegurança alimentar. A produção agrícola sofreu perdas agudas: o plantio de milho (miglio) registrou queda de 50% e o sorgo 24% em 2023. O setor industrial foi praticamente aniquilado em áreas estratégicas — até 90% da capacidade produtiva dessas zonas encontra-se destruída, em grande parte por concentrar dois terços das instalações em regiões diretamente afetadas pelos combates.

O relatório traça dois cenários divergentes, como se fossem jogadas alternativas num tabuleiro: se a guerra persistir até 2030, a projeção indica perda adicional de cerca de 34,5 bilhões de dólares até 2043, aprofundando a fragmentação econômica e social. Em contrapartida, uma cessação imediata das hostilidades abriria caminho para uma recuperação substancial do PIB, com estimativas mais favoráveis para o horizonte de 2043.

Do ponto de vista estratégico e diplomático, o Sudão representa hoje um problema de estabilidade regional e de recalibragem dos eixos de influência: a destruição de infraestrutura e a diáspora interna redesenham fronteiras invisíveis de poder. A reconstrução exigirá não apenas recursos financeiros, mas um reset institucional e acordos de segurança que restabeleçam a convivência mínima necessária para reativar a economia e os serviços.

Em suma, a análise do UNDP funciona como alerta claro: estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro africano. A diferença entre um caminho de recuperação e a consolidação de um estado falido depende de gestos políticos concretos — cessar-fogo, corredores humanitários, e um comprometimento internacional para reconstrução. Sem essas jogadas coordenadas, o Sudão corre o risco de ver alicerces frágeis da diplomacia desmoronarem, com consequências humanitárias e geopolíticas de longo prazo.