Tamir Pardo, ex-chefe do Mossad, diz: “Tenho vergonha de ser judeu” após ver violência de colonos na Cisjordânia

Tamir Pardo, ex-chefe do Mossad, diz ter vergonha de ser judeu após ver violência de colonos na Cisjordânia e alerta para risco de novo 7 de outubro.

Tamir Pardo, ex-chefe do Mossad, diz: “Tenho vergonha de ser judeu” após ver violência de colonos na Cisjordânia

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Tamir Pardo, ex-chefe do Mossad, diz: “Tenho vergonha de ser judeu” após ver violência de colonos na Cisjordânia

Por Marco Severini — Analista de geopolítica

Em um pronunciamento carregado de significado e disposição crítica rara para quem foi parte integrante dos corredores do poder, Tamir Pardo, ex-diretor do Mossad (2011–2016), declarou publicamente: “Tenho vergonha de ser judeu”. A frase, proferida depois de uma visita a vilarejos palestinos na Cisjordânia durante uma reportagem do Channel 13, ecoa como um movimento decisivo no tabuleiro da opinião pública israelense e internacional.

Pardo, nomeado por Benjamin Netanyahu e figura que personifica décadas de serviço à segurança do Estado de Israel, participou da visita ao lado de ex-altos oficiais do exército. O que encontrou, segundo relato à emissora e a reportagens do Middle East Eye, o deixou profundamente perturbado: cenas de violência perpetrada por colonos com ampla impunidade, atitudes toleradas — quando não encorajadas — pelas autoridades locais.

“O que vi aqui me lembrou dos relatos da minha mãe sobre o Holocausto”, afirmou Pardo, cuja mãe sobreviveu ao genocídio. A analogia, carregada de dor pessoal, não é trivial: vem de um homem que foi parte do sistema e que, em várias ocasiões, esteve na linha de frente da proteção de Israel. Sua trajetória inclui participações emblemáticas, como a Operação Entebbe em 1976, sob o comando de Yonatan Netanyahu — episódios que consolidaram sua reputação como um oficial disposto a arriscar a própria vida pelo Estado.

Mais preocupante que a memória evocada por sua mãe foi a advertência estratégica que Pardo lançou: a conduta dos colonos, operando em quase total impunidade, estaria semeando os “alicerces” de um novo 7 de outubro — referência ao ataque de 7 de outubro —, um evento que, na leitura do ex-chefe do Mossad, poderia emergir desta vez da Cisjordânia, numa forma distinta e inclusive mais dolorosa pela complexidade da região.

Ao invocar o filósofo Yeshayahu Leibowitz, cujas críticas à ocupação datam de 1968, Pardo faz um diagnóstico que soa como um mapa de riscos: o controle sobre milhões de palestinos, advertia Leibowitz, tende a corromper a própria sociedade israelense. Pardo, que outrora desacreditou tal prognóstico, hoje admite que havia “muita verdade” naquela visão. É um reconhecimento de desgaste moral e institucional — um redesenho de fronteiras invisíveis entre segurança e opressão.

As palavras de Pardo têm profundidade simbólica porque procedem de alguém que foi “o sistema”. Elas funcionam como um alerta diplomático e estratégico: não se trata apenas de críticas morais, mas de uma avaliação fria de risco. Quando uma figura com seu currículo aponta a erosão da legitimidade do Estado, o pronunciamento assume valor premonitório para a tectônica de poder em toda a região.

Como analista, vejo nesta declaração uma peça que altera equilíbrios — não por espetáculo, mas por consequência prática. Os relatos da Cisjordânia e o reconhecimento público de um ex-chefe do Mossad de que o Estado estaria semeando o próximo grande conflito formam um compêndio de alerta: os custos estratégicos da ocupação e da impunidade dos colonos não são abstratos; são potenciais catalisadores de crises maiores, capazes de redesenhar alianças e expor os alicerces frágeis da diplomacia regional.

Fontes: Channel 13; Middle East Eye.