The Occultist: estúdio espanhol DALOAR enfrenta gigantes do horror com jogo artesanal

DALOAR lança The Occultist: jogo de horror artesanal que desafia gigantes, entre IA, crises de talento e financiamento público de €2M.

The Occultist: estúdio espanhol DALOAR enfrenta gigantes do horror com jogo artesanal

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The Occultist: estúdio espanhol DALOAR enfrenta gigantes do horror com jogo artesanal

Por Marco Severini – Em um movimento calculado no tabuleiro global dos videogames, o selo espanhol DALOAR lançou esta semana The Occultist, um título de horror que não pretende dominar as bilheteiras, mas sim conquistar as consolas e as prateleiras digitais. Fruto de cinco anos de trabalho de uma equipa que hoje ronda as trinta pessoas, o projecto surge numa fase de tectônica de poder para a indústria: entre produções triple A e a rápida incorporação de tecnologias, sobretudo a inteligência artificial, os pequenos estúdios tentam redesenhar fronteiras invisíveis.

The Occultist narra a trajetória de um médium capaz de estabelecer pontes entre os vivos e os mortos. A sua estrutura narrativa e estética assume referências explícitas aos cânones do género, com menções frequentes à saga Resident Evil, um ponto de referência admitido por David Lorenzo, CEO do estúdio sediado em Valladolid. Em entrevista à EFE, Lorenzo reconhece ter-se sempre olhado com atenção para esses marcos, sem, contudo, renunciar a uma identidade própria.

Apesar das dimensões relativamente modestas de DALOAR perante as multinacionais do sector, há um otimismo estratégico que perpassa as declarações do seu líder. «Na nossa posição humilde, tentámos chegar ao ápice do que é tendência internacional», disse Lorenzo. Essa ambição está ancorada numa leitura pragmática das mudanças nos paradigmas produtivos: «Antes eram precisas 800 pessoas para fazer um videojogo. Hoje há outras formas de produzir», observou, num diagnóstico que aponta também para a recente vaga massiva de despedimentos nas grandes empresas como sintoma de uma bolha especulativa em vias de ruptura.

A génese de The Occultist é exemplar de crescimento orgânico: o projecto nasceu há cinco anos com apenas quatro programadores e, gradualmente, atraiu investimento público e privado — cerca de dois milhões de euros — permitindo expandir a equipa para mais de trinta colaboradores. Lorenzo admite que mais recursos acelerariam os prazos, mas sublinha a disciplina estratégica de adaptar meios a fins. Além disso, anunciou que um novo título será revelado ainda este ano.

Num plano político-económico interno, o CEO critica a «guerra pelos talentos», onde empresas em guerra de ofertas criam dinâmicas hierárquicas rígidas e profundas desigualdades salariais. É um alerta sobre os alicerces frágeis da indústria contemporânea, onde a rotatividade e as práticas predatórias podem corroer a estabilidade a longo prazo.

Quanto à incorporação da inteligência artificial, Lorenzo reconhece um antes e um depois nos processos criativos, mas mantém uma visão antropocêntrica do desenvolvimento. «O nosso trabalho é puramente feito à mão», afirma, sem demonizar a tecnologia, porém contrapondo-se às narrativas mais extremas que proclamam jogos inteiramente gerados por IA. Para DALOAR, o aporte criativo humano permanece o único elemento verdadeiramente insubstituível — uma convicção que, no xadrez da indústria, busca preservar o valor humano como peça-chave da estratégia.

Em suma, The Occultist representa um movimento estratégico: um pequeno estúdio investe na qualidade narrativa e na tradição do horror para disputar espaço num mercado polarizado. É uma jogada que testa a resistência das velhas estruturas e explora novas aberturas, enquanto a indústria enfrenta ajustes tectónicos e a inevitável integração tecnológica.