Escursionista encontrada viva após 14 dias na Malásia: 'Bevia água negra e beirava a morte'

Escursionista malaia de 49 anos é encontrada viva após 14 dias; sobreviveu bebendo água barrenta e orvalho. Resgate realizado por pescadores Orang Asli.

Escursionista encontrada viva após 14 dias na Malásia: 'Bevia água negra e beirava a morte'

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Escursionista encontrada viva após 14 dias na Malásia: 'Bevia água negra e beirava a morte'

Por Marco Severini — Em um movimento que relembra um lance de xadrez em que uma peça isolada sobrevive graças a uma sequência de pequenos, porém decisivos, gestos, a história de Jaslinda Saludin se configura como um estudo sobre resistência humana e as frágeis linhas de apoio que a diplomacia humanitária e as comunidades locais podem oferecer.

Aos 49 anos, Jaslinda Saludin foi localizada viva após permanecer perdida por 14 dias na densa vegetação do Gunung Batu Putih, no estado malaio de Perak. O resgate ocorreu na tarde de 6 de junho, por volta das 15h, quando pescadores do povo indígena Orang Asli do assentamento de Lubuk Gaharu a encontraram fraca e chorando nas margens de um rio.

Segundo relatos, a sobrevivente passou longos períodos sem alimentação — 'Não comi por duas semanas', declarou em vídeo enquanto recebia os primeiros socorros — e sustentou-se apenas com o que a floresta oferecia: gotas de orvalho, água de coloração escura acumulada em plantas carnívoras e fontes de água barrenta. 'Bevia água negra, água marrom e a água das plantas carnívoras... me senti em equilíbrio entre a vida e a morte', disse ela.

As condições enfrentadas por Jaslinda foram severas. Sabarodzi Nor Ahmad, vice-diretor das operações do Departamento de Bombeiros e Resgate de Perak, confirmou que a mulher passou cerca de três dias sem acesso a água potável, intercalados por quedas — inclusive de aproximadamente cinco metros — e terreno lamacento que a fez perder o caminho diversas vezes. Em alguns momentos relatou sentir que iria morrer ao tentar subir e descer encostas instáveis.

Os pescadores que a encontraram notaram um saco plástico com cogumelos entre seus pertences. Levando-a à casa do chefe da aldeia (Tok Batin), ofereceram alimentos simples, como macarrão instantâneo, antes da transferência para atendimento médico no hospital de Tapah. Em entrevista, Jaslinda manifestou seu arrependimento por ter causado esforço às equipes de busca: 'Sinto muito por ter causado problemas aos malaios'.

As lesões documentadas pelas autoridades foram consideradas leves no conjunto: picadas de insetos, ferimentos superficiais na cabeça e sinais de desidratação e desnutrição, mas sem traumas que comprometesse a estabilização clínica imediata. A operação de busca que mobilizou recursos locais e voluntários mostrou a coordenação entre serviços oficiais e comunidades tradicionais — um alicerce muitas vezes subestimado nas avaliações de risco em áreas remotas.

Do ponto de vista estratégico, o episódio revela duas lições claras. A primeira: a geografia continua a ditar movimentos e decisões, e o conhecimento local funciona como uma forma de capital implícito, capaz de reverter prognósticos adversos. A segunda: em um tabuleiro onde a vida e a morte são peças, pequenos gestos — a percepção de um pescador, a oferta de um prato quente — podem ser o movimento decisivo que altera o curso de uma partida.

Enquanto Jaslinda se recupera, o caso segue como lembrete da fragilidade humana diante de ambientes extremos e da importância de integrar saberes tradicionais e operações públicas nos protocolos de resgate. A tectônica de poder entre estado, comunidades indígenas e instituições de resposta rápida mostrou-se, neste episódio, um desenho funcional que salvou uma vida.