Trump abala cúpula da OTAN com críticas a aliados; Meloni afirma relações 'cordiais'
No encontro da OTAN, Trump critica aliados e reacende questões estratégicas; Meloni diz manter 'relações cordiais' com o presidente americano.
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Trump abala cúpula da OTAN com críticas a aliados; Meloni afirma relações 'cordiais'
Por Marco Severini — No tabuleiro diplomático do encontro da OTAN, o presidente norte-americano Donald Trump voltou a provocar desequilíbrios com declarações que ressoaram além da sala onde se realizava o jantar dos líderes. Em encontro reservado com o anfitrião Recep Tayyip Erdogan, bastaram cerca de trinta minutos para que Trump relançasse temas capazes de redesenhar, ainda que temporariamente, as linhas de influência do bloco.
Trump reiterou sua decepção com a OTAN, chegando a afirmar que, sem o apoio de Erdogan, talvez não tivesse comparecido ao cúpula. Dirigiu críticas diretas a Itália, França e Alemanha, acusando-as de terem-lhe "virado as costas" durante a crise com o Irã. Ao mesmo tempo, evocou novamente a reivindicação sobre a Groenlândia e não descartou, mais uma vez, a possibilidade de retirar tropas americanas da Europa.
Sobre a relação pessoal com a chefe do governo italiano, Giorgia Meloni, Trump foi claro: "É uma boa pessoa, gosto dela, mas errou ao recusar nosso pedido de ajuda sobre o Irã" — uma frase que mistura reprovação com a porta entreaberta para um possível reatamento. É uma jogada típica de quem domina a arte do posicionamento: ao mesmo tempo que golpeia, oferece um caminho de volta, mantendo alternância entre pressão e conciliação no tabuleiro.
Do lado de Palazzo Chigi, a reação pública foi comedida. Após decidir não se pronunciar sobre o meme com que Trump ironizou a primeira-ministra — tema que poderia inflamar ainda mais as relações — não houve resposta oficial às palavras de amenização do presidente americano. Meloni chegou com alguns minutos de atraso à refeição dos líderes e foi recebida pelo vice-presidente turco Cevdet Yilmaz. Ao sentar-se à mesa principal, ocupou lugar central ao lado de figuras como Keir Starmer, Mark Rutte, Friedrich Merz e seus pares, além de Emmanuel Macron, Erdogan e o próprio Trump.
Ao ser questionada pelos jornalistas sobre um eventual esclarecimento com Trump, a primeira-ministra limitou-se a dizer: "Rapporti cordiali" — ou, em português, relações cordiais. A expressão é medida: preserva o alicerce mínimamente estável das relações bilaterais, sem, contudo, camuflar divergências estratégicas.
Mais tarde, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, destacou, ao final do jantar com colegas da OTAN, que o vínculo com o secretário de Estado americano Marco Rubio permanece sólido. Tajani relatou conversas sobre a situação no Oriente Médio, a guerra na Ucrânia e o desejo de trabalhar por uma solução pacificadora entre Líbano e Israel. "Não é fácil", admitiu, sublinhando que, apesar de provocações retóricas, os laços institucionais com os Estados Unidos continuam robustos.
Em termos de geopolítica, o episódio ilustra uma tectônica de poder em duas camadas: por um lado, a ação performativa de um líder que usa o palco para forçar concessões e realinhar prioridades; por outro, a disciplina das instituições e aliadas que trabalham nos bastidores para conter rupturas. Como num jogo de xadrez de alto nível, cada lance de estridência exige movimentos discretos de contenção e reequilíbrio. A estabilidade do bloco dependerá, nas próximas horas e dias, da capacidade de transformar palavras em compromissos tangíveis — ou de limitá-las ao teatro das declarações.