Trump acusa o Papa Leone XIV de pôr em risco «muitos católicos» e complica tentativa de reaproximação

Trump ataca Papa Leone XIV e diz que pontífice "põe em risco muitos católicos"; tensão cresce antes da visita de Marco Rubio ao Vaticano.

Trump acusa o Papa Leone XIV de pôr em risco «muitos católicos» e complica tentativa de reaproximação

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Trump acusa o Papa Leone XIV de pôr em risco «muitos católicos» e complica tentativa de reaproximação

Tudo indicava que um rasgo diplomático poderia ser costurado. A visita de Marco Rubio ao Vaticano, marcada para depois de amanhã, fora organizada também com esse objetivo. No entanto, a 24 horas da chegada do Secretário de Estado a Roma, Donald Trump retornou ao ataque contra o Papa Leone XIV.

Em entrevista telefônica ao apresentador Hugh Hewitt, do conservador Salem News Channel, o presidente dos Estados Unidos afirmou que “o Papa está pondo em perigo muitos católicos e muitas pessoas”. A conversa ocorreu num contexto já tenso: o entrevistador questionou Trump sobre a sua viagem à China, programada para 14 e 15 de maio, e sobre a expectativa de que o pontífice se pronunciasse a respeito do caso do dissidente Jimmy Lai, condenado a 20 anos de prisão em Hong Kong por acusações relacionadas à “colusão com forças estrangeiras” e “conspiração com fins de sedição”.

A resposta de Trump voltou-se contra as posições do pontífice em política externa: “O Papa prefere falar que para o Irã é aceitável ter uma arma nuclear, e eu não creio que isso seja algo positivo — penso que ele está pondo em perigo muitos católicos e muitas pessoas. Mas imagino que, para o Papa, está bem que o Irã tenha uma arma nuclear.”

Hewitt, conhecido comentarista republicano e rosto do Salem Media Group, reagiu de modo desdenhoso, acrescentando comentários sobre a origem do pontífice. A entrevista, portanto, realimenta uma disputa aberta que já se acentuara no início de abril.

O primeiro embate público entre os dois ocorreu quando, em 7 de abril, Trump usou a plataforma Truth para proferir uma ameaça contra o Irã caso o Estreito de Hormuz não fosse reaberto, afirmando que “uma civilização inteira morreria esta noite” e prometendo eliminar o país. O Papa Leone XIV, horas depois, condenou a retórica e a ameaça contra o povo iraniano, declarando que isso era inaceitável, e apelou aos fiéis para pressionarem parlamentares nos Estados Unidos no sentido de evitar a escalada rumo à guerra, pregando a paz.

À época, a troca de acusações escalou: Trump chamou o pontífice de “fraco em matéria de criminalidade” e “ruim em política externa”. A tensão agora se repete, em outro movimento no tabuleiro diplomático, precisamente quando uma visita estratégica do Secretário de Estado ao Vaticano poderia ter servido como ponte para um acerto.

Do ponto de vista da arquitetura das relações internacionais, assistimos ao deslocamento de peças num tabuleiro onde as linhas entre moralidade religiosa, interesses geopolíticos e eleitorais se intersectam. A discordância entre a Casa Branca e a Santa Sé expõe alicerces frágeis da diplomacia contemporânea: por um lado, a preocupação pastoral do pontífice com a paz e a proteção de comunidades vulneráveis; por outro, a prática da Realpolitik presidencial, instrumentalizando posições em função de segurança e consenso interno.

Enquanto Marco Rubio prepara sua chegada a Roma, a tessitura das relações entre Washington e o Vaticano permanece sujeita a novos deslocamentos: cada declaração pública realinha vetores de influência, desenhando um mapa onde a tectônica do poder pode redimensionar âncoras históricas da diplomacia católica e das políticas externas americanas.