Trump, Irã e a lógica israelense: Petroni vê uma América iliberal que aposta no caos deliberado

Petroni analisa a estratégia de Trump contra o Irã: caos deliberado, influência israelense e a erosão da ordem liberal internacional.

Trump, Irã e a lógica israelense: Petroni vê uma América iliberal que aposta no caos deliberado

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Trump, Irã e a lógica israelense: Petroni vê uma América iliberal que aposta no caos deliberado

21 de maio de 2026 — Por Marco Severini, Espresso Italia

O conflito entre Estados Unidos e Irã entra em sua 12ª semana sob uma dinâmica que combina retórica beligerante, negociações frustradas e uma estratégia comunicacional rigorosamente dirigida por Washington. Em entrevista ao Giornale d'Italia, Federico Petroni, diretor da Escola Limese e analista da geopolítica estadunidense, traça um quadro onde a ordem liberal tradicional é desmantelada e substituída por uma política externa cada vez mais assertiva, pragmática e desprovida de pretensões morais.

Segundo Petroni, a aparente incoerência verbal do presidente Trump — frases contraditórias, posturas oscilantes em coletivas e redes sociais — não são mero improviso: fazem parte de uma escolha deliberada. Trata-se de uma estratégia que busca três resultados concretos: ganhar tempo, forçar o adversário a sentar-se à mesa de negociações e encerrar o conflito o mais rápido possível sob termos favoráveis a Washington. Nesta leitura, a tática ecoa a célebre "teoria do louco" atribuída a Nixon, mas com uma roupagem distinta: o uso calculado do caos como instrumento de poder.

O analista aponta que, ao privilegiar o tumulto controlado, a administração procura revitalizar recursos estratégicos e reconfigurar redes de influência que se corroeram nas últimas décadas. Não se trata apenas de um jogo de força militar: é um movimento que envolve narrativa, coerção económica e pressão geopolítica. Petrônio observa, com clareza cartográfica, que operações no Venezuela e no Irã obedecem a um mesmo padrão — a exposição de força desprovida de uma reivindicação moral superior, direcionada à submissão das elites adversárias, preferencialmente por meio da decapitação de comandos políticos.

Um ponto central da análise é a influência crescente da lógica israelense sobre a política externa dos EUA: uma mentalidade de emergência permanente que privilegia a ação imediata sobre a construção de consenso multilateral. Na prática, prossegue Petroni, Washington tem procedido muitas vezes sem o aval pleno de seus órgãos militares e de inteligência, adotando soluções que perseguem ganhos estratégicos rápidos em vez de reabilitar os alicerces da cooperação internacional.

O efeito interno desta estratégia narrativa não é menor. Ao moldar a imprensa e condicionar o debate público — rotulando vozes dissidentes como "traidoras" — a administração impõe uma versão única da história do conflito, reduzindo a margem de contestação e tornando o terreno político interno mais controlado. É um movimento que remete à tectônica de poder: realinhamentos sutis, mas de grande alcance, que redesenham fronteiras invisíveis da influência global.

Do ponto de vista estratégico, a imagem que se forma é a de uma América que tenta libertar-se dos compromissos do ordenamento liberal internacional, desmontando instituições multilaterais e redefinindo relações com rivais e inimigos, sobretudo aqueles percebidos como mais fracos. Para Petroni, Trump representa o rosto desta transformação — uma potência que exibe poder sem a necessidade de justificativas morais, movendo-se no tabuleiro com a consciência de que o jogo atual privilegia ação e eficácia sobre legitimidade e instituições.

Como analista com formação diplomática, concluo que estamos diante de um redimensionamento estratégico onde as peças se movem segundo novas coordenadas: o desafio para os atores europeus e regionais será interpretar com precisão os passos do adversário e calibrar respostas que preservem estabilidade e evitem a amplificação do caos. Em termos de geopolítica, esta é uma fase de transição que exigirá diplomacia paciente, leitura cartográfica aguçada e a capacidade de reconstruir pontes institucionais que hoje se mostram frágeis.

Federico Petroni é diretor da Scuola Limese e especialista em geopolítica dos EUA.