Trump propõe suspensão de 20 anos do programa nuclear iraniano; Araghchi aponta abertura à solução chinesa e tensão nos BRICS aumenta

Trump aceita suspensão nuclear iraniana por 20 anos; Araghchi acolhe iniciativa chinesa. BRICS em impasse, com tensões entre Teerã e Emirados.

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Trump propõe suspensão de 20 anos do programa nuclear iraniano; Araghchi aponta abertura à solução chinesa e tensão nos BRICS aumenta

Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura peças no tabuleiro diplomático, o presidente dos Estados Unidos, Trump, deixou Pequim a bordo do Air Force One após um encontro com o líder chinês Xi Jinping que, nas palavras oficiais, minimizou divergências, mas não alterou substancialmente as linhas de força entre as superpotências. Durante o embarque, Trump afirmou aos jornalistas que tanto ele quanto Xi desejam o fim do conflito no Oriente Médio e que o Irã não deve possuir capacidade nuclear.

Segundo relatos da mídia regional, Trump declarou não ter objeções a uma suspensão do programa nuclear iraniano por 20 anos, desde que se trate de um compromisso verídico e verificável. A proposta — formulada em termos de prazo — desenha um possível mecanismo de contenção que visa redefinir por um ciclo longo os parâmetros tecnológicos e estratégicos de Teerã.

Em declarações que evocam uma estratégia de uso da força como instrumento último, o presidente americano também sugeriu que os Estados Unidos poderiam intervir novamente no Irã para fazer "alguma limpeza". "Nós praticamente varremos suas forças armadas", afirmou, acrescentando que poderá ser necessário completar o trabalho após um curto cessar-fogo de um mês. Trump admitiu, ainda, que aceitou a trégua "para fazer um favor ao Paquistão", apesar de não considerar pessoalmente essa a melhor opção.

No mesmo palco internacional, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, declarou em Nova Délhi que Teerã recebeu sinais dos Estados Unidos indicando disposição para prosseguir com diálogos que permitam pôr fim à guerra na região. "Qualquer iniciativa que a China fizer para ajudar será bem-vinda", disse Araghchi, contraponto diplomático que abre espaço para um papel mediador de Pequim.

A reunião ministerial dos BRICS — realizada em Nova Délhi e que contou com Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e observadores como Irã, Egito, Emirados e Indonésia — terminou sem uma declaração conjunta. A Índia justificou o impasse citando "divergências de opinião entre alguns membros" sobre a situação em Gaza, na segurança do Mar Vermelho e no Estreito de Bab al-Mandeb. Em linguagem direta, Araghchi acusou publicamente um Estado do bloco de manter uma "relação especial com Israel" — referência tácita aos Emirados — e responsabilizou esse ator por bloquear o comunicado final.

Araghchi foi incisivo: classificou como "imperdoável" a suposta collusão entre aquele Estado e Tel Aviv, e afirmou que o apoio de Washington e de Israel à agressão contra o Irã torna a posição do país insustentável. "As instalações militares americanas, que deveriam garantir segurança, tornaram-se fontes de insegurança", observou, apontando para uma erosão dos alicerces da diplomacia e para a tectônica de poder que tensiona o bloco.

O episódio expõe fissuras crescentes dentro dos BRICS, projetando uma cartografia de interesses divergentes que transforma a aliança em um tabuleiro onde alianças regionais e relações bilaterais podem sobrepor-se às intenções multilaterais. Enquanto Washington ensaia um prazo de vinte anos para conter o programa nuclear iraniano e admite usos coercitivos, Teerã abre-se à mediação chinesa e acusa parceiros regionais de minar consenso. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro global, cujo desfecho dependerá da capacidade dos atores de equilibrar força, diplomacia e verificação técnica.