Tsur acusa Netanyahu: “Os reféns não eram prioridade — o objetivo era conquistar Gaza”
Michael Tsur acusa Netanyahu de priorizar a conquista de Gaza em vez da libertação dos reféns do ataque de 7 de outubro de 2023.
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Tsur acusa Netanyahu: “Os reféns não eram prioridade — o objetivo era conquistar Gaza”
Por Marco Severini, Espresso Italia — Em leitura que se impõe ao tabuleiro geopolítico do Médio Oriente, o livro Il Negoziatore, de Frediano Finucci, traz denúncias e testemunhos que redesenham as linhas de tensão em torno do ataque de 7 de outubro de 2023. O negociador e advogado israeliano Michael Tsur, figura central nas negociações que se seguiram, afirma sem rodeios que a liderança de Benjamin Netanyahu jamais teve como prioridade a libertação dos reféns tomados por Hamas — mas sim uma ambição estratégica maior: a conquista de Gaza.
Como analista que acompanha a tectônica de poder regional, observo que essa acusação não é mero relato de bastidores. Tsur, que integrou desde as primeiras horas a chamada Unidade de Negociação, descreve um sistema governamental fragmentado, incapaz de converter sinais de alerta em respostas coordenadas. Segundo seu depoimento, após cerca de dois meses de tentativa de influenciar decisões operacionais, o próprio negociador optou por se afastar, frustrado pela inércia política e pela prioridade conferida a objetivos militares.
O livro recupera ainda um documento de inteligência — referido em círculos oficiais e jornalísticos como Mura di Gerico (ou “Muralhas de Jericó”) — já conhecido de autoridades israelenses desde abril de 2018. Nele, desenhavam-se cenários de uma ofensiva coordenada com penetrações múltiplas a partir de Gaza, ataques a bases das Israel Defense Forces e incursões em profundidade no território israelense. Se confirmado o efeito prático desse conhecimento, trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro que implicaria graves falhas de prevenção.
Paralelamente, diplomatas egípcios revelaram que, cerca de duas semanas antes do 7 de outubro, o Cairo teria alertado Israel sobre um perigo iminente — advertência que, segundo relatos, foi ignorada por Tel Aviv. Esses elementos compõem um quadro no qual os alicerces da diplomacia e da segurança se mostram frágeis: sinais de inteligência, avisos externos e capacidades operacionais não convergiram em uma política coerente de proteção e negociação.
O episódio adquiriu contornos institucionais também no plano jurídico: a Alta Corte israelense suspendeu investigações e auditores centrais, questionando uma comissão de inquérito promovida pelo governo por não ser considerada imparcial nem verdadeiramente bipartidária. Essa paralisação reforça a sensação de um mecanismo estatal mais preocupado em proteger sua narrativa do que em esclarecer os fatos.
Em termos estratégicos, a leitura de Tsur aponta para uma escolha de estratégia ofensiva que privilegiou ganhos territoriais e simbólicos sobre a salvaguarda imediata de vidas humanas. Essa prioridade, se comprovada, representa não apenas um erro de cálculo político, mas uma mudança estrutural na forma como decisões críticas são avaliadas diante da pressão do eleitorado e das dinâmicas internas de coalizão.
Como analista, convoco a leitura deste depoimento como um convite à reflexão: quando os jogadores do tabuleiro estatal deslocam o foco da diplomacia para a conquista, as fronteiras invisíveis entre segurança e política se redesenham, com consequências duradouras para a estabilidade regional. A clareza dos fatos exigirá investigações independentes e uma reforma dos mecanismos de controle que evite que decisões estratégicas se confundam com objetivos partidários.


