Ucrânia e UE: a corrida com obstáculos e o redesenho de prioridades na ampliação
Ucrânia busca adesão à UE, mas prioridades dos Balcanos e exigências da Hungria criam obstáculos estratégicos no processo.
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Ucrânia e UE: a corrida com obstáculos e o redesenho de prioridades na ampliação
Por Marco Severini — A busca da Ucrânia por um assento permanente na União Europeia revela-se, neste momento, menos uma marcha triunfal e mais um movimento cauteloso num tabuleiro onde intereses históricos e prioridades regionais se chocam. As aspirações de Volodymyr Zelensky encontram, dentro dos corredores europeus, uma multiplicidade de vetos, reservas e condições que transformam a corrida de adesão numa sequência de obstáculos diplomáticos.
Vários Estados-membros têm pedido prudência e equilíbrio. Áustria e Grécia, entre outros, defendem que a entrada de Kiev não deva fazer sombra à longa trajetória dos Balcanos Ocidentais, cujo percurso de integração foi formalmente reconhecido já em 2003, na Agenda de Salónica. Nesta leitura estratégica, abrir uma "via rápida" para alguns candidatos correria o risco de deslocar dos alicerces da diplomacia europeia compromissos mantidos há décadas.
O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, sintetizou bem essa tensão: declara-se favorável à adesão da Ucrânia, mas recorda que "os Balcãs são candidatos há anos, há países praticamente prontos e é justo priorizá-los". É uma chamada à coerência de política externa: não se trata apenas de gestos simbólicos, mas de honrar compromissos que estruturam a estabilidade balcânica — e, por extensão, a segurança europeia.
Uma mudança de dinâmica veio de Budapeste. O novo primeiro-ministro húngaro, Peter Magyar, em visita a Bruxelas, abriu ontem uma fresta para aceitar a entrada da Ucrânia, contanto que sejam salvaguardados os direitos da minoria húngara presentes em território ucraniano. Trata-se de um movimento tático que reforça como, no processo de adesão, a tectônica de poder interno e as exigências de proteção identitária podem ditar termos diplomáticos.
Do outro lado do espectro, a ministra austríaca para Assuntos Europeus, Claudia Bauer, mantém posição dura: "As mesmas regras devem valer para todos os candidatos. Para alguns existe uma via preferencial; outros terão de trabalhar por décadas". Essa advertência sublinha um princípio caro à construção comunitária: igualdade de critérios para preservar a legitimidade do processo.
Uma fonte diplomática da UE afirmou ao Kyiv Independent que a Grécia apoia os processos de adesão da Ucrânia e da Moldávia, desde que isso não ocorra "à custa" dos Balcanos Ocidentais. Historicamente, desde 2003, apenas a Eslovênia (2004) e a Croácia (2013) lograram completar o caminho. Montenegro e Albânia surgem como próximos na fila: o primeiro apontado como o provável seguinte; a Albânia, com o avanço do fim de maio, alimenta a expectativa do presidente Edi Rama por uma entrada "neste decênio".
Entretanto, outros casos demonstram entraves persistentes. A Macedónia do Norte é candidata desde 2005, mas bloqueios vindos da Grécia e, mais tarde, de disputas com a Bulgária sobre identidade retardaram seu progresso. A Sérvia, também candidata desde 2005, sofreu retrocessos democráticos que levaram a UE a ponderar congelamentos de financiamento. Bósnia-Herzegovina e Kosovo ainda não alcançaram o estatuto formal de candidatos.
Em 2022 a Ucrânia superou alguns desses estadios ao receber o estatuto de candidata. Se, como previsto, a Comissão iniciar em junho a abertura de negociações com novos candidatos, Kiev poderá avançar e mesmo ultrapassar países que aguardam há décadas. Mas esse avanço dependerá da capacidade da Europa de gerir prioridades sem desestabilizar os equilibrios regionais — um movimento decisivo no tabuleiro que exige habilidade, paciência e respeito pelos compromissos históricos.
Em suma, a adesão da Ucrânia à União Europeia permanece possível, porém condicionada a jogos de influência e garantias legais que transformam o processo numa partida estratégica de longuíssimo fôlego.