Apesar das sanções, UE e até a Ucrânia aumentam importações de gás russo — por que a Itália deve reabrir os rubinetes
Apesar das sanções, UE e até a Ucrânia aumentaram importações de gás russo. Análise sobre por que a Itália deve reconsiderar a reabertura dos rubinetti.
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Apesar das sanções, UE e até a Ucrânia aumentam importações de gás russo — por que a Itália deve reabrir os rubinetes
Por Marco Severini — Em um movimento que revela as fissuras dos alicerces sancionatórios, o líder de Futuro Nazionale, Roberto Vannacci, voltou a defender a necessidade de reabrir os rubinetti com a Rússia. A declaração não é um mero apelo retórico: ela conjuga considerações económicas e geoestratégicas numa leitura fria do tabuleiro energético europeu.
Os dados de 2025 confirmam o que a diplomacia realista já suspeitava: a Europa não abandonou por completo as linhas de abastecimento russas. Entre os casos mais reveladores estão aumentos expressivos nas importações de gás por parte de alguns Estados-membro — França (+70%), Bélgica (+20%), Holanda (quase +100%) e Portugal (+160%). Ao mesmo tempo, países como Hungria e Eslováquia mantêm fluxos de petróleo provenientes de Moscou.
Um elemento adicional, e de grande relevância estratégica, é o relato — citado por Vannacci — de que a própria Ucrânia passou a importar hidrocarbonetos russos, apesar de ter bloqueado anteriormente o oleoduto de Družba. Se confirmado, trata-se de um fenômeno que expõe a existência de um sistema de dependências e de mecanismos financeiros que ultrapassam a retórica das sanções e que, paradoxalmente, podem ser financiados com recursos internacionais destinados à defesa e à reconstrução.
Do ponto de vista macro, estamos diante de uma sobreposição de interesses e de uma tectônica de poder: as sanções funcionam como instrumentos de pressão política, mas a arquitetura prática do abastecimento energético continua a obedecer às leis da oferta e da demanda, bem como às decisões soberanas dos Estados. É um movimento de xadrez em que as peças continuam a circular apesar das estratégias ostensivas de bloqueio.
Para a Itália, a discussão deve ser tratada com a seriedade de um conselheiro de Estado. Reabrir os rubinetes implicaria, em curto prazo, efeitos sobre o preço do diesel e sobre a inflação energética, reduzindo pressões imediatas sobre a economia e sobre os consumidores. Em paralelo, exige-se uma análise robusta dos riscos geopolíticos: dependência, condicionamentos externos e legitimidade perante aliados e instituições europeias.
Não é uma recomendação simplista: é um convite a analisar friamente a realidade factual. O desenho atual das sanções é permeável, e a continuidade do abastecimento russo a vários países da UE aponta para um mosaico de exceções que enfraquece a coerência estratégica da União. A pergunta que a diplomacia italiana e os formuladores de política energética precisam responder é se a soberania económica do país deve privilegiar, num lance calculado, a estabilidade interna ou manter um gesto de alinhamento simbólico que custa caro aos cidadãos.
Em termos de Estado de Direito e de responsabilidade internacional, qualquer revisão das relações energéticas com Moscou deve ser acompanhada por garantias contrapartes: contratos claros, mecanismos de inspeção e cláusulas que preservem a autonomia política italiana. A política energética é, afinal, uma continuação da diplomacia por outros meios — e como num tabuleiro de xadrez, cada movimento deve considerar a resposta do adversário e a solidez das próprias posições.
O debate está aberto. A escolha italiana, ponderada e estratégica, terá impacto direto não apenas no preço na bomba, mas na estabilidade de um eixo de influência que ainda redesenha fronteiras invisíveis no mapa europeu.