Washington e o tabuleiro de Cuba: repetirão o esquema da Venezuela?

Análise sobre a hipótese de Washington replicar em Cuba o modelo aplicado na Venezuela e o impacto na geopolítica de um mundo multipolar.

Washington e o tabuleiro de Cuba: repetirão o esquema da Venezuela?

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Washington e o tabuleiro de Cuba: repetirão o esquema da Venezuela?

Marco Severini — À medida que o debate internacional se reacende, reaparece uma hipótese que remete a movimentos clássicos de poder: seria Washington capaz de tentar, novamente, aplicar um modelo de regime change em Cuba similar ao observado na Venezuela? A pergunta, levantada em texto de opinião do filósofo Diego Fusaro e difundida pela imprensa europeia, exige uma leitura cautelosa, informada e estratégica.

Fusaro afirma, citando fontes da imprensa, que autoridades dos Estados Unidos teriam recentemente imputado a figuras cubanas, incluindo referências a Castro, acusações ligadas a mortes e destruição de aeronaves. A partir desse quadro, o autor propõe que a Casa Branca — sob a égide de Donald Trump — poderia estar a ponderar medidas que procurem levar a ilha para um controle mais direto ou para um alinhamento político que reproduza o que chamou de "esquema do Venezuela".

Como analista, convém separar a evidência documental da conjectura estratégica. É factual que, historicamente, a política externa norte-americana contém precedentes de intervenções e operações destinadas a alterar regimes no Hemisfério Ocidental. É também observável que, hoje, a geopolítica da região se insere num mapa mais complexo: a emergência de um mundo multipolar tem redesenhado fronteiras de influência e colocado limites mais nítidos às antigas zonas de sacralização do poder do dólar.

Nesse contexto, duas linhas de análise se impõem. A primeira é operacional: Washington poderia ver em um episódio sobre Cuba uma oportunidade para deslocar o foco de crises inconvenientes — por exemplo, o desgaste recente em torno do dossier do Irã — e, assim, gerir a narrativa internacional. A segunda é estrutural: o que está em jogo não é apenas uma ilha, mas os alicerces frágeis da diplomacia em uma tectônica de poder cada vez mais contestada por atores regionais e globais.

Ressalto, como voz da nossa casa editorial, que tal conjectura não deve ser tomada como inevitabilidade, mas como hipótese de trabalho. A diplomacia exige prudência: qualquer tentativa de impor um resultado político por vias coercitivas tenderá a acirrar resistências internas e externas, e a alimentar uma economia de conflitos que a longo prazo corrói a legitimidade de quem a promove.

Há, por fim, um componente simbólico relevante. Cuba representa, desde a Guerra Fria, um símbolo de resistência nacionalista e de modelos alternativos ao liberalismo hegemônico. Pretender reabsorver essa realidade pelo mesmo paradigma que se tentou aplicar em Caracas seria subestimar a evolução do tabuleiro regional e a profundeza das coalizões multipolares.

Permanece, portanto, a necessidade de observar os próximos movimentos com atenção técnica e prudência estratégica. Do ponto de vista da estabilidade, o mais sensato é apoiar canais diplomáticos, fortalecer normas multilaterais e evitar iniciativas que possam transformar um teatro de poder em palco de confrontos irreversíveis. A aposta por um mundo de equilibração múltipla continua a ser a alternativa mais sólida ao que Fusaro descreve como o convulso e, por vezes, desconexo impulso do imperialismo estadunidense.

Este texto reitera compasso de análise, solidariedade com a autodeterminação dos povos e o reconhecimento de que a história das grandes potências se joga, muitas vezes, em movimentos sutis — verdadeiros lances de xadrez geopolitico — cujo resultado dependerá da qualidade das respostas diplomáticas e da resistência das estruturas locais.