Xi e Trump em Pequim: o tabuleiro estratégico entre Irã, tarifas e domínio tecnológico

Análise estratégica do encontro Xi-Trump: Irã, tarifas, tecnologia e o poder das terras raras na balança geopolítica.

Xi e Trump em Pequim: o tabuleiro estratégico entre Irã, tarifas e domínio tecnológico

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Xi e Trump em Pequim: o tabuleiro estratégico entre Irã, tarifas e domínio tecnológico

Por Marco Severini — Ao chegar ao encontro com Donald Trump, previsto em Pequim entre 13 e 15 de maio, Xi Jinping se apresenta com aparentes vantagens geopolíticas, mas essas fortalezas estão atenuadas por fatores econômicos internos e pela dinâmica conflituosa no Médio Oriente. Em termos estratégicos, a China dispõe hoje de cartas decisivas — notadamente o domínio nas terras raras e em metais críticos para a indústria moderna — que podem ser usadas como alavanca para obter concessões de Washington. No entanto, os alicerces desse poder econômico mostram fragilidades que o Ocidente e aliados observam com atenção.

Han Lin, diretor para a China do The Asia Group, resume a posição de Pequim como a de quem “chega com assos na manga, mas também com um senso real de urgência”. A urgência deriva, em primeiro lugar, da exposição chinesa às consequências de uma escalada prolongada no Médio Oriente. Apesar das reservas petrolíferas e da diversificação das fontes de fornecimento, Pequim não é imune: em abril houve alta nos preços do gás, e industriais chineses já manifestam apreensão quanto ao aumento dos custos de produção de insumos como os plásticos, derivados do petróleo.

Analistas de Capital Economics — Julian Evans-Pritchard e Leah Fahy — observam que a aparente recuperação do comércio exterior chinês no mês passado foi parcialmente impulsionada pela subida do preço do petróleo e por um salto nos valores dos chips eletrônicos. Se a guerra no Médio Oriente se prolongar e empurrar os preços energéticos para níveis que freiem a demanda global, o efeito sobre a atividade chinesa pode ser significativo.

Ao mesmo tempo, a relação entre Pequim e Teerã constitui uma fonte adicional de tensão diplomática. Trump pode tentar pressionar Xi para que exerça influência sobre o Irã e consiga concessões favoráveis aos Estados Unidos. Mas uma resposta desse tipo colocaria em risco a confiança construída entre China e Irã, fazendo ruir parte do capital diplomático que Pequim vem acumulando no teatro do Oriente Médio — um movimento arriscado no grande tabuleiro da técnica de influência.

No plano comercial, o último encontro entre Xi e Trump, ocorrido em outubro, gerou uma trégua frágil que reduziu temporariamente a intensidade das tarifas punitivas. Ainda assim, Pequim vem diversificando parceiros e adotando medidas domésticas para conter os efeitos nocivos de uma possível reorientação das cadeias de suprimento. Em abril, o governo chinês publicou novas normas destinadas a dificultar que empresas excluam a China de suas cadeias produtivas — uma peça de defesa para manter a atratividade do país como base industrial.

Por fim, o campo tecnológico permanece como arena central da rivalidade sino-americana. Washington multiplica controles e restrições para conter o acesso das empresas chinesas aos chips mais avançados e às ferramentas de inteligência artificial. Essa contenção, simultaneamente, aperta o cerco sobre a capacidade de inovação e integração das cadeias tecnológicas chinesas, forçando Pequim a acelerar uma estratégia de autossuficiência e proteção industrial.

Em síntese, o encontro Xi-Trump terá a forma de uma partida complexa: Xi dispõe de cartas estratégicas — recursos naturais críticos, reservas energéticas, redes diplomáticas —, mas precisa manobrar com cautela para não desgastar alianças e não expor a economia chinesa a choques externos. Trump, por sua vez, busca explorar fragilidades do rival sem perder fôlego político interno, numa partida em que os riscos econômicos e as tensões tecnológicas podem redesenhar fronteiras invisíveis de influência.

Num tabuleiro global cada vez mais marcado por blocos e corredores de tecnologia, a visita transformará em jogo diplomático de alto risco as interdependências que caracterizam a era pós-industrial: energia, chips, terras raras e cadeias de suprimento serão, juntos, os vetores que poderão alterar a tectônica de poder entre Pequim e Washington.