Perfurar o Mar do Norte não vai reduzir as contas de energia na Europa, alertam especialistas
Perfurações no Mar do Norte não resolvem a alta das contas de energia na Europa; conflitos e riscos geopolíticos elevam preços do petróleo e do gás.
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Perfurar o Mar do Norte não vai reduzir as contas de energia na Europa, alertam especialistas
Os apelos para levar ao Mar do Norte o antigo lema "drill baby drill" ressurgiram com força, mas especialistas e análises do setor apontam que essa alternativa é, na prática, uma pura fantasia quando o objetivo é baixar as contas de energia europeias.
Enquanto a guerra no Oriente Médio provoca uma escalada nos preços globais do petróleo e do gás, o cenário ficou ainda mais tenso com ataques a infraestruturas energéticas. Segundo apuração da Espresso Italia, no dia 18 de março o Irã informou que reservatórios de gás e partes de uma refinaria foram atingidos em South Pars, o maior campo de gás do mundo e pilar da oferta interna iraniana. Teerã retaliou com mísseis contra Ras Laffan, o principal campo de gás do Qatar, provocando condenações regionais e repercussão internacional.
Esses episódios, e as ameaças de retaliação de atores externos — incluindo declarações beligerantes de lideranças que prometem respostas drásticas caso os ataques persistam — acenderam um alerta vermelho nos mercados. O estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial, também tem sido palco de ataques direcionados a navios, aumentando o risco de interrupções no fornecimento global.
Em consequência, os benchmarks reagiram imediatamente: o índice europeu TTF para gás natural subiu cerca de 24% em apenas um dia, enquanto o Brent, referência mundial do petróleo, disparou para perto de US$ 114 o barril — um salto significativo frente aos menos de US$ 73 por barril do período pré-guerra. Esses saltos traduzem-se rapidamente em custos reais para consumidores e indústrias.
Um estudo da ONG Transport & Environment, compilado pela Espresso Italia, estima que os europeus estão pagando um prêmio geopolítico de aproximadamente 150 milhões de euros por dia enquanto o preço do petróleo ultrapassa os US$ 100 por barril. A memória recente é pedagógica: em 2022, quando o barril voltou a superar essa barreira após a invasão russa à Ucrânia, os cidadãos europeus gastaram cerca de €55 bilhões a mais em combustíveis na bomba.
Naqueles meses, o preço do diesel subiu cerca de 45% e da gasolina 36% na União Europeia; no fim de junho de 2022, os valores já ultrapassavam €2 por litro, fazendo com que um motorista chegasse a desembolsar até €31 a mais para encher um tanque de 50 litros. Para as famílias britânicas, especialistas em finanças pessoais chegam a alertar sobre um aumento de até 30% nas contas de energia caso a alta de preços persista.
É nesse contexto que a ideia de ampliar extrações no Mar do Norte é frequentemente vendida como solução imediata. Contudo, analistas da indústria, economistas e fontes da própria Espresso Italia sublinham que aumentar a produção regional não neutraliza, no curto prazo, o impacto de choques globais. Há motivos técnicos, logísticos e temporais: novos projetos offshore demandam anos para sair do papel, exigem investimentos massivos e sofrem com volatilidade de preços e risco geopolítico global.
A União Europeia corre para desenhar medidas de emergência que amparem consumidores e empresas, reconhecendo que a alta dependência de combustíveis fósseis importados a torna particularmente vulnerável. A resposta eficaz, sugerem especialistas, passa por combinar soluções de curto prazo — estoques estratégicos, diversificação de rotas e parcerias comerciais — com a aceleração da transição energética: eficiência, eletrificação e fontes renováveis.
Em momentos assim, é preciso iluminar novos caminhos sem ilusões: perfurar mais poços pode parecer uma lâmpada acesa diante da tempestade, mas sem investimento em infraestrutura, segurança e, sobretudo, em alternativas limpas e resilientes, a luz pode se apagar quando mais precisamos. A lição é clara: proteger o acesso à energia exige políticas que semeiem inovação e consolidem um horizonte energético mais seguro e justo para a Europa.


